Hoje, quando escrevo este post, são passados mais de 3 meses
do dia nele relatado, que foi o último dessa viagem. Acho que só consegui
escrevê-lo, finalmente, pois já estamos em outras férias, que se não
trarão uma aventura comparável (e nem poderiam), ao menos distraem o coração
cheio de saudades dessa Lua de Mel inesquecível!
Decidimos usar boa parte da manhã para ajeitar as malas, que
estavam repletas de encomendas. Nossa última programação seria corrida, com
Museu Norman Rockwell, almoço, viagem de retorno a Boston, devolução do carro
alugado e jantar com Martha e Taka. No dia seguinte, às 12h, já precisávamos
estar a caminho do aeroporto e não queríamos contar com essa manhã curta pra
nada muito importante.
Infelizmente, isso nos custou a despedida das espetaculares
panquecas do Hampton Terrace, pois não conseguimos descer a tempo de pegá-las, mas
tentei me consolar com a perspectiva de um crédito extra de calorias durante o
almoço.
Despedimo-nos de Stan rapidamente, pois ele estava atendendo
um novo hóspede que chegava, mas fizemos questão de elogiar efusivamente a
casa, a cidade, a hospitalidade e... o café da manhã.
Chegamos no Museu Norman Rockwell com tempo bem nublado e
ficamos com medo de não poder aproveitar os campos abertos que havíamos visto
no dia anterior, mas não chegou a chover.
Bastaram 15 minutos visitando o espaço para agradecermos
mentalmente outra vez à atendente do dia anterior que nos sugeriu retornar
naquele Domingo, com mais calma. De fato, 40 minutos ali não seriam nada.
O Museu Norman Rockwell é o tipo do lugar que se deve
visitar com calma, pois as imagens ali se associam muito a noções de um Estados
Unidos que formamos no imaginário por meio de muitos filmes, que retratavam uma
época e cenários particularmente simpáticos. A cidade de Stockbridge, bem como
todas as próximas que compõem o Condado dos Berkshires, haviam sido palco das
inúmeras situações e personagens retratados por Rockwell, em épocas marcantes
da história americana e mundial.
Nas 323 capas da revista Saturday Evening Post, que ele criou
durante 4 décadas, estão rica e imageticamente narrados tanto momentos
marcantes na história, como a Grande Depressão, a II Guerra, a luta pela
igualdade dos direitos civis e a morte de Kennedy, mas principalmente as
pessoas comuns e suas experiências cotidianas, retratadas com sensibilidade e apuro
estético que chegam a ser comoventes.
Começamos nossa visita pelo salão rodeado pelas 323 capas,
em tamanho real, divididas por fases específicas do artista, que refletiram
contextos ali descritos. Ao centro, projetava-se um filme de 20 minutos sobre a
história de Norman Rockwell, desde seu nascimento, em Nova York, até sua morte,
aos 84 anos, passando pela carreira precocemente iniciada, sua ida para
Stockbridge, onde na pacata cidade serrana, ele explorou todo o seu potencial
de observação e técnica.
Os contextos associados às fases em que as capas foram
divididas eram particularmente interessantes. Tanto que tirei foto de algumas delas
e aqui fiz uma tradução livre...
1916 – 1919
“A maior parte das capas de Rockwell de 1916 a 1919 retrata
momentos da juventude, principalmente, a alegre energia de meninos em suas
brincadeiras. Essas imagens influenciaram e foram influenciadas por transformações
na forma de se encarar cultural e socialmente as crianças e os adolescentes. As
crianças liam mais do que jamais haviam lido e não eram mais tratados como
pequenos homens e mulheres. Em vez disso, educadores, psicólogos e
publicitários encorajavam pais a acalentar a infância de seus filhos,
entendendo a necessidade das crianças pela brincadeira e diversão,
possibilitando-lhes esses momentos.”
“Rockwell não pintou a pobreza e desespero da Grande
Depressão. Assim como nos filmes desse período, suas imagens traziam a
fantasia, a aventura e o passado distante. Cinema, música, romance, esportes e
viagens estão entre os temas favoritos de Rockwell no período de 1930 a 1939”.
“Rockwell continuou a documentar a geração Baby Boom do pós
guerra com imagens da vida familiar. Como nas primeiras décadas de sua
carreira, ele frequentemente se concentrou em crianças e jovens, trazendo um
olhar de compreensão positiva a seus ritos de passagem. Nos anos 50, Rockwell
foi convidado a criar retratos de candidatos a presidente e de outras
celebridades.”
Inúmeras capas valem destaque pelo contexto histórico, como
a famosa “Rosie the Riveter”, que retratava a mulher operária, assumindo
funções antes inimagináveis, mas imprescindíveis e, então, disponíveis num mundo
em que os homens estavam no front de guerra. Não deve dar pra reparar na foto
pequena, mas ela está pisando num exemplar do “Mein Kampf” de Hitler.
O retrato de Kennedy, na capa de luto após sua morte, última
criação de Rockwell para a Saturday Evening Post, que a partir de então passou
a se utilizar de material fotográfico para suas capas.
Uma simpática capa, durante a guerra, que traduzia o
significado do Natal, em meio ao turbilhão de notícias terríveis que povoavam
os jornais naquele período.
Pela perspectiva da evolução do detalhamento estético e da
retórica visual desse artista incrível, é quase impossível fazer escolhas do que
seriam destaques, mas tentei elencar alguns, dentre as fotos que tirei.
Esta foi a primeira capa para a Saturday Evening Post, feita
aos 22 anos.
Vendo essa imagem, imagino quantas linhas seriam necessárias
para descrever uma história que Rockwell capturava em um instante? Deve ser uma
brincadeira semiótica divertida fazer esse exercício! Difícil imaginar um
artista que exemplifique melhor a ideia da imagem narrativa, numa especialidade
que ele lapidou primorosamente ao longo dos anos.
Na capa a seguir, não se tem a menor dúvida de que o
personagem adormeceu na frente de uma lareira, embora a própria não apareça em
momento algum. É principalmente a luz avermelhada, associada ao aconchego de um
cochilo irresistível, com um livro na mão e um gatinho ao lado, hipnotizado
pelo que se imagina ser o crepitar do fogo. O significado principal que ele
quis dar à capa, não sei se é possível enxergar na foto que eu tirei, está no
fundo, onde são percebidas silhuetas dos personagens que estariam povoando os
sonhos do homem que dorme, sugerindo que o livro em seu colo estivesse
motivando esses sonhos. Todo esse conjunto narrativo é de uma graça,
inventividade e harmonia incríveis, mas o que mais me chama atenção nesta capa
ainda é a óbvia presença da lareira, embora literalmente ela não esteja lá.
Outro atributo incontestável de Rockwell era o humor com que tratava os temas. Nesta capa, “Tattoo Artist”, é impossível não achar graça
da expressão blasé do marinheiro conquistador, enquanto é tatuado no braço o
nome da última mulher de uma lista de 7, onde as 6 primeiras estão riscadas.
As expressões de seus personagens eram outra marca
registrada do artista, que buscava modelos que conseguissem representar com altíssima
plasticidade nos músculos. Numa das narrações que ouvimos, contava-se que um de
seus testes para elencar essas pessoas era pedir que suspendessem apenas uma
sobrancelha.
Boa parte de seus personagens foram posados por vizinhos e
conhecidos de Stockbridge, como esta menina das capas abaixo, “Girl at the
Mirror” e “Outside the Principal´s Office” que diante de sua excelente
performance, pode ser vista em várias outras. Um depoimento comovente da
modelo, que pela voz, já deveria ser uma senhora idosa, contava que, na época,
ela não tinha noção da sensibilidade com que estava sendo retratada na capa em
que se mira no espelho, comparando-se com as divas e pin-ups das revistas. Além
de ter sido inspiração para uma das capas mais famosas de Rockwell, a obra
também representava com extrema delicadeza uma fase de sua infância e ela se
dizia eternamente grata por isso.
Outra característica que demonstra a inventividade de Norman
Rockwell são os pontos de vista inusitados, mas nunca gratuitos. Nas telas do
artista, uma perspectiva incomum tinha por objetivo enriquecer a obra não
apenas pela originalidade, mas sendo mais um ou até mesmo o principal elemento
narrativo.
E, talvez a característica comum a todos eles: os detalhes.
Como a capa que tem em seu tema principal o jovem e belo
casal assinando os papéis de casamento, mas que é acompanhado por um escrivão
com uma fantástica expressão de enfadonho, daqueles que já viram a mesma cena
centenas de vezes e, provavelmente, não vê a hora de ir embora.
Ou a trouxinha de dos pertences da criança, no canto da
imagem abaixo, que complementa com delicadeza a ideia de que o menino da capa
fugiu de casa e está sendo convencido com doçura pelo policial boa praça e
observado pelo atendente, que parece achar graça da história.
Rockwell também aplicou alguns modelos de narrativa a
situações semelhantes, como as árvores genealógicas (em que ele mesmo serviu de
modelo para o pastor)...
Ou as histórias contadas a partir de instantâneos em diferentes momentos no tempo,
como se fossem quadrinhos, nas inesquecíveis “Coming and Going” e a “Chain of Gossip”.
A seguir, os originais de Rockwell para as capas, que eram
pinturas enormes, e também seus estudos fotográficos que serviam de modelos. Olha aí o
original da ida e volta do passeio em família, o estudo fotográfico da fofoca
seguido de sua obra final.
O original de "Um Dia na Vida de uma Menina" (e quem não
reconhece quem é a menina?)
E a cidade de Stockbridge, que além de palco, foi personagem
principal de uma de suas capas, no Natal.
Rockwell tinha lucidez e senso de humildade
impressionantes. Não se considerava um artista, que em sua concepção, era
diferente de um ilustrador, como ele. Esta frase a respeito de
seu trabalho demonstra essa percepção, “Você precisa ser óbvio. Você tem de agradar tanto o editor de
arte, quanto o público. Isso é difícil para o ilustrador, em comparação com o
artista, que pode pintar um objeto de qualquer forma com que venha a
interpretá-lo.”
Além de Rockwell, pudemos conferir uma exposição incrível de
Edward Hopper, cujo estilo era bem mais subjetivo do que Rockwell, mas que
também realizava ilustrações repletas de significados complementares, formando
uma narrativa.
Já era mais tarde do que havíamos nos programado pra sair do
museu, mas ainda faltava um bom bocado pra vermos, então continuamos. Saímos
para a parte aberta, no caminho do estúdio de Rockwell e conferimos a vista.
Constatamos que a vegetação dos Berkshires em Stockbridge era tão bonita quanto
em Lenox, com seu cenário bucólico apenas perdendo para as colinas sob a linda
luz dourada que tivemos sorte de presenciar em Tanglewood.
O estúdio de Rockwell havia sido remontado dentro da propriedade do museu, seguindo estritamente o original, que foi o último estúdio do artista. O anterior, em Westwood, havia sido destruído num incêndio que foi bem humoradamente descrito por suas ilustrações.
A plaquinha explicativa na entrada da construção apresentava
um pouco de sua história.
“Em 1957, Norman Rockwell adquiriu uma casa na South Street,
próxima ao centro de Stockbridge, Massachusetts. O quintal da propriedade
incluía um celeiro em ruínas que ele converteu em estúdio. Apesar de ocupar
aproximadamente 20 estúdios ao longo de sua vida, foi neste último – que você
pode ver a sua frente – ao qual ele se referiu como seu 'melhor estúdio'.
Com a idade, Rockwell passou a ter preocupações com o
destino de seu espaço de trabalho preferido e no ano de 1976, ele registrou seu
desejo de confiar o prédio e seus objetos ao Museu Norman Rockwell. O estúdio foi
temporariamente esvaziado e transportado para o Museu, até sua localização
atual, em 1986, chegando ao campus em dois caminhões.
Com sua saúde declinando, Rockwell produziu poucos trabalhos
depois de 1976 e, gradualmente, suas visitas ao estúdio cessaram. No momento em
que ele foi adquirido pelo Museu, a organização do seu interior refletia os
aspectos das últimas atividades do artista, dentro de sua carreira. A
interpretação atual do Museu replica como o estúdio apareceria em outubro de
1960, quando Norman Rockwell estava imerso na complexidade de seu quadro ‘Golden
Rule’, que viria a ser a capa do Saturday Evening Post de 1º de abril de 1961.
Esta instalação oferece insights sobre o intenso processo de trabalho de
Rockwell, suas aspirações artísticas e um típico dia da vida neste estúdio,
durante o tempo em que ele estava sendo usado ativamente.”
Tomando conta do espaço estava uma senhora idosa bem ao
estilo das que vínhamos conhecendo naquela região. Sorridente e de olhar espertíssimo,
a despeito da idade que se poderia supor pelas muitas ruguinhas e cabeleira
branca, passava detalhes sobre o uso daquele espaço por Norman Rockwell a quem
ela pessoalmente tinha conhecido. Sentada em sua cadeirinha, olhava cada um nos
olhos firmemente, inquirindo os visitantes com sua voz limpa “Vamos, vocês
podem me perguntar! Podem me perguntar o que quiserem!”. Diante de tanta
energia, questionei se ela havia chegado a posar para algum dos quadros de
Rockwell, mas não antes de fazer algumas contas pra checar se a pergunta não
seria burra ou ofensiva. Ela respondeu que não, mas que seu tio havia sido.
O Eduardo ficou fascinado com o estúdio, percorrendo todos
os cantinhos e me pedindo pra registrar espaços que ele gostaria de copiar quando
tiver seu próprio estúdio de pintura.
Dos diversos objetos interessantes que povoavam o estúdio de
Rockwell, esse capacete valia uma menção honrosa. Estava descrito como o
“capacete da humildade” e trazia uma história que retratava bem seu bom humor e
lucidez na forma de enxergar a vida. Rockwell comprou-o achando tratar-se de
uma relíquia e acabou descobrindo ser um capacete de uniforme de bombeiros.
Gostava de ostentá-lo a sua vista (sendo registrado, inclusive, em seu
auto-retrato), para lembrá-lo de como não se deve se levar tanto a sério.
Continuando nossa visita pelo campus do Museu, vimos uma
linda casa com construção bem diferente das que havíamos visto por ali. Infelizmente,
não era possível entrar, pois se tratava de um prédio administrativo do museu.
Tratava-se da Linwood House, cuja história pode ser
brevemente conhecida na placa explicativa.
“Charles Butler, um prestigiado advogado de Nova York, ergueu
a Linwood House em 1859. Essa graciosa casa de verão foi construída por sua
família e nomeada pela casa no livro entitulado The Linwoods, por Catharine
Sedgwick, sua parente.
A residência de Buler estava entre as primeiras casas de
verão elegantes que vieram a ser conhecidas como as 'Berkshire Cottages'. Seu
parceiro de advocacia, Joseph Hodges Choate, também costumava aproveitar o
verão nesta área. Projetada em 1885 por Stanford White, Choate´s Naumkeag pode
ser vista ao longo do vale do rio Hausatonic. A Linwood House foi posteriormente
passada adiante por gerações até Marguerite Butler Swann e seu marido Percy
Musgrave.
Durante seus passeios de bicicleta que fazia diariamente de
sua casa no centro de Stockbridge até este local, Norman Rockwell se tornou
próximo à família Musgrave. Ele aproveitou as lindas vistas da propriedade, sem
chegar a ter ideia de que um dia ela seria pano de fundo para um museu criado
em sua honra. A estrutura de Linwood House permanece como era quando Charles
Butler vivia aqui, mas o prédio hoje abriga os escritórios administrativos do
museu e por isso não estão abertos ao público”.
Nossa vontade era de ainda aproveitar mais aquele lindo museu, mas já estávamos extremamente atrasados pro horário que havíamos calculado ser possível almoçar e retornar a Boston a tempo de devolver o carro alugado.
Em todo caso, não podíamos ir embora dos Berkshires sem uma
última refeição. Diante do fato de os restaurantes italianos para os quais
havíamos nos programado estarem fechados, fomos a uma simpática e deliciosa
hamburgueria numa das ruas principais de Lenox.
Depois, pé na estrada pela Mass Pike, cujas plaquinhas eventualmente eram representadas por esse simpático chapeuzinho de puritano.
Pegamos um pouco de trânsito e chegamos a Boston 25 minutos depois de o escritório do
aluguel de carros fechar e ainda a tempo de assistir a Alemanha vencendo a
final dessa melancólica (ao menos para os brasileiros) Copa do Mundo. Mas a multa de um dia de atraso foi compensada pela visita em tempo adequado ao museu de que tanto gostamos.
Depois de fazermos os últimos ajustes de malas para o dia
seguinte, nos aprontamos para a despedida dos queridos Martha e Taka. Não poderia
ter sido um fechamento melhor para esta viagem tão incrível!



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