domingo, 2 de novembro de 2014

13 de julho: Museu Norman Rockwell, despedida dos Berkshires e de Boston

Hoje, quando escrevo este post, são passados mais de 3 meses do dia nele relatado, que foi o último dessa viagem. Acho que só consegui escrevê-lo, finalmente, pois já estamos em outras férias, que se não trarão uma aventura comparável (e nem poderiam), ao menos distraem o coração cheio de saudades dessa Lua de Mel inesquecível!

Decidimos usar boa parte da manhã para ajeitar as malas, que estavam repletas de encomendas. Nossa última programação seria corrida, com Museu Norman Rockwell, almoço, viagem de retorno a Boston, devolução do carro alugado e jantar com Martha e Taka. No dia seguinte, às 12h, já precisávamos estar a caminho do aeroporto e não queríamos contar com essa manhã curta pra nada muito importante.

Infelizmente, isso nos custou a despedida das espetaculares panquecas do Hampton Terrace, pois não conseguimos descer a tempo de pegá-las, mas tentei me consolar com a perspectiva de um crédito extra de calorias durante o almoço.

Despedimo-nos de Stan rapidamente, pois ele estava atendendo um novo hóspede que chegava, mas fizemos questão de elogiar efusivamente a casa, a cidade, a hospitalidade e... o café da manhã.

Chegamos no Museu Norman Rockwell com tempo bem nublado e ficamos com medo de não poder aproveitar os campos abertos que havíamos visto no dia anterior, mas não chegou a chover.


Bastaram 15 minutos visitando o espaço para agradecermos mentalmente outra vez à atendente do dia anterior que nos sugeriu retornar naquele Domingo, com mais calma. De fato, 40 minutos ali não seriam nada.

O Museu Norman Rockwell é o tipo do lugar que se deve visitar com calma, pois as imagens ali se associam muito a noções de um Estados Unidos que formamos no imaginário por meio de muitos filmes, que retratavam uma época e cenários particularmente simpáticos. A cidade de Stockbridge, bem como todas as próximas que compõem o Condado dos Berkshires, haviam sido palco das inúmeras situações e personagens retratados por Rockwell, em épocas marcantes da história americana e mundial.

Nas 323 capas da revista Saturday Evening Post, que ele criou durante 4 décadas, estão rica e imageticamente narrados tanto momentos marcantes na história, como a Grande Depressão, a II Guerra, a luta pela igualdade dos direitos civis e a morte de Kennedy, mas principalmente as pessoas comuns e suas experiências cotidianas, retratadas com sensibilidade e apuro estético que chegam a ser comoventes.

Começamos nossa visita pelo salão rodeado pelas 323 capas, em tamanho real, divididas por fases específicas do artista, que refletiram contextos ali descritos. Ao centro, projetava-se um filme de 20 minutos sobre a história de Norman Rockwell, desde seu nascimento, em Nova York, até sua morte, aos 84 anos, passando pela carreira precocemente iniciada, sua ida para Stockbridge, onde na pacata cidade serrana, ele explorou todo o seu potencial de observação e técnica.

Os contextos associados às fases em que as capas foram divididas eram particularmente interessantes. Tanto que tirei foto de algumas delas e aqui fiz uma tradução livre...
1916 – 1919


“A maior parte das capas de Rockwell de 1916 a 1919 retrata momentos da juventude, principalmente, a alegre energia de meninos em suas brincadeiras. Essas imagens influenciaram e foram influenciadas por transformações na forma de se encarar cultural e socialmente as crianças e os adolescentes. As crianças liam mais do que jamais haviam lido e não eram mais tratados como pequenos homens e mulheres. Em vez disso, educadores, psicólogos e publicitários encorajavam pais a acalentar a infância de seus filhos, entendendo a necessidade das crianças pela brincadeira e diversão, possibilitando-lhes esses momentos.”



1930 a 1939


“Rockwell não pintou a pobreza e desespero da Grande Depressão. Assim como nos filmes desse período, suas imagens traziam a fantasia, a aventura e o passado distante. Cinema, música, romance, esportes e viagens estão entre os temas favoritos de Rockwell no período de 1930 a 1939”.


1950 a 1959


“Rockwell continuou a documentar a geração Baby Boom do pós guerra com imagens da vida familiar. Como nas primeiras décadas de sua carreira, ele frequentemente se concentrou em crianças e jovens, trazendo um olhar de compreensão positiva a seus ritos de passagem. Nos anos 50, Rockwell foi convidado a criar retratos de candidatos a presidente e de outras celebridades.”


Inúmeras capas valem destaque pelo contexto histórico, como a famosa “Rosie the Riveter”, que retratava a mulher operária, assumindo funções antes inimagináveis, mas imprescindíveis e, então, disponíveis num mundo em que os homens estavam no front de guerra. Não deve dar pra reparar na foto pequena, mas ela está pisando num exemplar do “Mein Kampf” de Hitler.


O retrato de Kennedy, na capa de luto após sua morte, última criação de Rockwell para a Saturday Evening Post, que a partir de então passou a se utilizar de material fotográfico para suas capas.


Uma simpática capa, durante a guerra, que traduzia o significado do Natal, em meio ao turbilhão de notícias terríveis que povoavam os jornais naquele período.


Pela perspectiva da evolução do detalhamento estético e da retórica visual desse artista incrível, é quase impossível fazer escolhas do que seriam destaques, mas tentei elencar alguns, dentre as fotos que tirei.

Esta foi a primeira capa para a Saturday Evening Post, feita aos 22 anos.


Vendo essa imagem, imagino quantas linhas seriam necessárias para descrever uma história que Rockwell capturava em um instante? Deve ser uma brincadeira semiótica divertida fazer esse exercício! Difícil imaginar um artista que exemplifique melhor a ideia da imagem narrativa, numa especialidade que ele lapidou primorosamente ao longo dos anos.

Na capa a seguir, não se tem a menor dúvida de que o personagem adormeceu na frente de uma lareira, embora a própria não apareça em momento algum. É principalmente a luz avermelhada, associada ao aconchego de um cochilo irresistível, com um livro na mão e um gatinho ao lado, hipnotizado pelo que se imagina ser o crepitar do fogo. O significado principal que ele quis dar à capa, não sei se é possível enxergar na foto que eu tirei, está no fundo, onde são percebidas silhuetas dos personagens que estariam povoando os sonhos do homem que dorme, sugerindo que o livro em seu colo estivesse motivando esses sonhos. Todo esse conjunto narrativo é de uma graça, inventividade e harmonia incríveis, mas o que mais me chama atenção nesta capa ainda é a óbvia presença da lareira, embora literalmente ela não esteja lá.


Outro atributo incontestável de Rockwell era o humor com que tratava os temas. Nesta capa, “Tattoo Artist”, é impossível não achar graça da expressão blasé do marinheiro conquistador, enquanto é tatuado no braço o nome da última mulher de uma lista de 7, onde as 6 primeiras estão riscadas.


As expressões de seus personagens eram outra marca registrada do artista, que buscava modelos que conseguissem representar com altíssima plasticidade nos músculos. Numa das narrações que ouvimos, contava-se que um de seus testes para elencar essas pessoas era pedir que suspendessem apenas uma sobrancelha.

Boa parte de seus personagens foram posados por vizinhos e conhecidos de Stockbridge, como esta menina das capas abaixo, “Girl at the Mirror” e “Outside the Principal´s Office” que diante de sua excelente performance, pode ser vista em várias outras. Um depoimento comovente da modelo, que pela voz, já deveria ser uma senhora idosa, contava que, na época, ela não tinha noção da sensibilidade com que estava sendo retratada na capa em que se mira no espelho, comparando-se com as divas e pin-ups das revistas. Além de ter sido inspiração para uma das capas mais famosas de Rockwell, a obra também representava com extrema delicadeza uma fase de sua infância e ela se dizia eternamente grata por isso.


Outra característica que demonstra a inventividade de Norman Rockwell são os pontos de vista inusitados, mas nunca gratuitos. Nas telas do artista, uma perspectiva incomum tinha por objetivo enriquecer a obra não apenas pela originalidade, mas sendo mais um ou até mesmo o principal elemento narrativo.




E, talvez a característica comum a todos eles: os detalhes.

Como a capa que tem em seu tema principal o jovem e belo casal assinando os papéis de casamento, mas que é acompanhado por um escrivão com uma fantástica expressão de enfadonho, daqueles que já viram a mesma cena centenas de vezes e, provavelmente, não vê a hora de ir embora.


Ou a trouxinha de dos pertences da criança, no canto da imagem abaixo, que complementa com delicadeza a ideia de que o menino da capa fugiu de casa e está sendo convencido com doçura pelo policial boa praça e observado pelo atendente, que parece achar graça da história.


Rockwell também aplicou alguns modelos de narrativa a situações semelhantes, como as árvores genealógicas (em que ele mesmo serviu de modelo para o pastor)...


Ou as histórias contadas a partir de instantâneos em diferentes momentos no tempo, como se fossem quadrinhos, nas inesquecíveis “Coming and Going” e a “Chain of Gossip”.


Do lado de fora do salão das capas, era possível conferir alguns dos estudos de Rockwell para suas obras. Nos dois abaixo, percebe-se como ele estudou a melhor composição e a que traria mais emoção à imagem, optando pelo escoteiro que abraça o menino mais jovem para ensiná-lo a dar o nó.



A seguir, os originais de Rockwell para as capas, que eram pinturas enormes, e também seus estudos fotográficos que serviam de modelos. Olha aí o original da ida e volta do passeio em família, o estudo fotográfico da fofoca seguido de sua obra final.




O original de "Um Dia na Vida de uma Menina" (e quem não reconhece quem é a menina?)


E a cidade de Stockbridge, que além de palco, foi personagem principal de uma de suas capas, no Natal.


Rockwell tinha lucidez e senso de humildade impressionantes. Não se considerava um artista, que em sua concepção, era diferente de um ilustrador, como ele. Esta frase a respeito de seu trabalho demonstra essa percepção, “Você precisa ser óbvio. Você tem de agradar tanto o editor de arte, quanto o público. Isso é difícil para o ilustrador, em comparação com o artista, que pode pintar um objeto de qualquer forma com que venha a interpretá-lo.”


Além de Rockwell, pudemos conferir uma exposição incrível de Edward Hopper, cujo estilo era bem mais subjetivo do que Rockwell, mas que também realizava ilustrações repletas de significados complementares, formando uma narrativa.





Já era mais tarde do que havíamos nos programado pra sair do museu, mas ainda faltava um bom bocado pra vermos, então continuamos. Saímos para a parte aberta, no caminho do estúdio de Rockwell e conferimos a vista. Constatamos que a vegetação dos Berkshires em Stockbridge era tão bonita quanto em Lenox, com seu cenário bucólico apenas perdendo para as colinas sob a linda luz dourada que tivemos sorte de presenciar em Tanglewood.




O estúdio de Rockwell havia sido remontado dentro da propriedade do museu, seguindo estritamente o original, que foi o último estúdio do artista. O anterior, em Westwood, havia sido destruído num incêndio que foi bem humoradamente descrito por suas ilustrações.

A plaquinha explicativa na entrada da construção apresentava um pouco de sua história.


“Em 1957, Norman Rockwell adquiriu uma casa na South Street, próxima ao centro de Stockbridge, Massachusetts. O quintal da propriedade incluía um celeiro em ruínas que ele converteu em estúdio. Apesar de ocupar aproximadamente 20 estúdios ao longo de sua vida, foi neste último – que você pode ver a sua frente – ao qual ele se referiu como seu 'melhor estúdio'.

Com a idade, Rockwell passou a ter preocupações com o destino de seu espaço de trabalho preferido e no ano de 1976, ele registrou seu desejo de confiar o prédio e seus objetos ao Museu Norman Rockwell. O estúdio foi temporariamente esvaziado e transportado para o Museu, até sua localização atual, em 1986, chegando ao campus em dois caminhões.

Com sua saúde declinando, Rockwell produziu poucos trabalhos depois de 1976 e, gradualmente, suas visitas ao estúdio cessaram. No momento em que ele foi adquirido pelo Museu, a organização do seu interior refletia os aspectos das últimas atividades do artista, dentro de sua carreira. A interpretação atual do Museu replica como o estúdio apareceria em outubro de 1960, quando Norman Rockwell estava imerso na complexidade de seu quadro ‘Golden Rule’, que viria a ser a capa do Saturday Evening Post de 1º de abril de 1961. Esta instalação oferece insights sobre o intenso processo de trabalho de Rockwell, suas aspirações artísticas e um típico dia da vida neste estúdio, durante o tempo em que ele estava sendo usado ativamente.”








Tomando conta do espaço estava uma senhora idosa bem ao estilo das que vínhamos conhecendo naquela região. Sorridente e de olhar espertíssimo, a despeito da idade que se poderia supor pelas muitas ruguinhas e cabeleira branca, passava detalhes sobre o uso daquele espaço por Norman Rockwell a quem ela pessoalmente tinha conhecido. Sentada em sua cadeirinha, olhava cada um nos olhos firmemente, inquirindo os visitantes com sua voz limpa “Vamos, vocês podem me perguntar! Podem me perguntar o que quiserem!”. Diante de tanta energia, questionei se ela havia chegado a posar para algum dos quadros de Rockwell, mas não antes de fazer algumas contas pra checar se a pergunta não seria burra ou ofensiva. Ela respondeu que não, mas que seu tio havia sido.


O Eduardo ficou fascinado com o estúdio, percorrendo todos os cantinhos e me pedindo pra registrar espaços que ele gostaria de copiar quando tiver seu próprio estúdio de pintura.







Dos diversos objetos interessantes que povoavam o estúdio de Rockwell, esse capacete valia uma menção honrosa. Estava descrito como o “capacete da humildade” e trazia uma história que retratava bem seu bom humor e lucidez na forma de enxergar a vida. Rockwell comprou-o achando tratar-se de uma relíquia e acabou descobrindo ser um capacete de uniforme de bombeiros. Gostava de ostentá-lo a sua vista (sendo registrado, inclusive, em seu auto-retrato), para lembrá-lo de como não se deve se levar tanto a sério.

Continuando nossa visita pelo campus do Museu, vimos uma linda casa com construção bem diferente das que havíamos visto por ali. Infelizmente, não era possível entrar, pois se tratava de um prédio administrativo do museu.


Tratava-se da Linwood House, cuja história pode ser brevemente conhecida na placa explicativa.


“Charles Butler, um prestigiado advogado de Nova York, ergueu a Linwood House em 1859. Essa graciosa casa de verão foi construída por sua família e nomeada pela casa no livro entitulado The Linwoods, por Catharine Sedgwick, sua parente.

A residência de Buler estava entre as primeiras casas de verão elegantes que vieram a ser conhecidas como as 'Berkshire Cottages'. Seu parceiro de advocacia, Joseph Hodges Choate, também costumava aproveitar o verão nesta área. Projetada em 1885 por Stanford White, Choate´s Naumkeag pode ser vista ao longo do vale do rio Hausatonic. A Linwood House foi posteriormente passada adiante por gerações até Marguerite Butler Swann e seu marido Percy Musgrave.

Durante seus passeios de bicicleta que fazia diariamente de sua casa no centro de Stockbridge até este local, Norman Rockwell se tornou próximo à família Musgrave. Ele aproveitou as lindas vistas da propriedade, sem chegar a ter ideia de que um dia ela seria pano de fundo para um museu criado em sua honra. A estrutura de Linwood House permanece como era quando Charles Butler vivia aqui, mas o prédio hoje abriga os escritórios administrativos do museu e por isso não estão abertos ao público”.



Nossa vontade era de ainda aproveitar mais aquele lindo museu, mas já estávamos extremamente atrasados pro horário que havíamos calculado ser possível almoçar e retornar a Boston a tempo de devolver o carro alugado.

Em todo caso, não podíamos ir embora dos Berkshires sem uma última refeição. Diante do fato de os restaurantes italianos para os quais havíamos nos programado estarem fechados, fomos a uma simpática e deliciosa hamburgueria numa das ruas principais de Lenox.



Depois, pé na estrada pela Mass Pike, cujas plaquinhas eventualmente eram representadas por esse simpático chapeuzinho de puritano.


Pegamos um pouco de trânsito e chegamos a Boston 25 minutos depois de o escritório do aluguel de carros fechar e ainda a tempo de assistir a Alemanha vencendo a final dessa melancólica (ao menos para os brasileiros) Copa do Mundo. Mas a multa de um dia de atraso foi compensada pela visita em tempo adequado ao museu de que tanto gostamos.

Depois de fazermos os últimos ajustes de malas para o dia seguinte, nos aprontamos para a despedida dos queridos Martha e Taka. Não poderia ter sido um fechamento melhor para esta viagem tão incrível!








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