Depois de mais um café da manhã com as espetaculares
panquecas do Hampton Terrace, que encharquei do maple syrup local, conversamos com
Stan, declinando educadamente do convite feito para assistir ao jogo com seus
filhos. É que Juan, amigo de faculdade do Eduardo, e sua família, só teriam
algumas horas pra passar conosco, pois precisariam chegar a outra cidade ainda
no horário do jantar.
Nosso encontro foi marcado em um café, numa das cidades
próximas, onde eles haviam pernoitado. Chegamos em 10 minutos, onde já estavam esperando Juan, Naomi e o filhinho dos dois, o fofo Jonah.
Eduardo não via Juan há cerca de 7 anos, quando foi padrinho
de casamento do amigo e Naomi. Durante esse tempo, muita coisa havia mudado, mas
apenas as novidades mais óbvias foram colocadas em dia naquele reencontro no
café, como a vida depois da chegada de Jonah a segunda gravidez de Naomi, que
contava com uma linda barrigona de 6 meses, com uma menininha a caminho. Do lado
do Eduardo, a principal novidade era eu! Rs.
Juan sugeriu que fizéssemos um passeio para
aproveitar o belo dia ensolarado numa montanha próxima, chamada Monument
Mountain. A ideia era pegar uma trilha leve, suficientemente fácil para não
exigir muito de Naomi e para que Jonah pudesse acompanhar o ritmo; o que depois
vimos ser uma preocupação completamente equivocada. O difícil foi nós conseguirmos
acompanhar o ritmo daquele pequeno Tarzan.
Todos nós sentíamos muito calor, mas eu era a que estava com
a roupa menos apropriada pra aquela empreitada. Derreti dentro de calça jeans,
camisa de botões e sapatilhas recentemente compradas que terminaram a aventura
um verdadeiro trapo. Ainda assim, nada disso era empecilho pra aproveitar as
belas paisagens e curtir o contato mais próximo com a linda vegetação da serra
de Berkshires.
Depois de caminharmos por cerca de uma hora – sempre com o
pequeno e bravo Jonah à frente, falando “Venham logo! Venham logo!” – ,
chegamos a um belíssimo mirante, que acredito ser o que uma das placas no
caminho sinalizava como “Devil´s Pulpit”.
Havia uma dezena de pessoas por lá, incluindo dois irmãos
sessentões muito simpáticos, que ficaram impressionados com a disposição de
Naomi, fazendo uma subida daquelas com seu barrigão e com a esperteza de Jonah,
que catava uma infinidade de blueberries que encontrava pelos arbustos. Tiraram
várias fotos do casal, junto ao pequeno Jonah, ressaltando bem o barrigão e os
lindos olhos azuis da grávida.
Quando chegamos ao carro, passava das 2 da tarde e estávamos
absolutamente famintos. Todos concordamos que comida japonesa seria uma boa
pedida e fomos juntos no carro de Juan em direção à simpática cidade de Great
Barrington, onde ele conhecia um bom restaurante.
Depois de um verdadeiro banquete, do qual eu infelizmente
não tirei nenhuma foto, descobrimos que, mais uma vez, a escolha de não perder
tempo assistindo ao jogo do Brasil na Copa foi uma boa pedida, pois nossa
seleção havia perdido a disputa do 3º lugar por 3 X 0 para a Holanda.
Nossos amigos ainda tinham estrada pra frente naquele dia.
Assim, com muita pena pelo curto tempo, mas felizes pela possibilidade do
reencontro (e encontro, no meu caso), voltamos ao estacionamento de Monument
Mountain, onde estava nosso carro. Despedimo-nos já com saudades e, enquanto
eles seguiram para ir ao encontro de parentes, eu e Eduardo fomos em direção ao
Norman Rockwell´s Museum, em Stockbridge.
A tarde estava linda e nos empolgamos com o visual dos
jardins amplos, que faziam parte do Museu. Mas, quando fomos comprar nossos
ingressos, a atendente nos questionou se não teríamos tempo pra vir no dia
seguinte, pois o museu fecharia em menos de uma hora, num tempo que ela não considerava
suficiente pra se aproveitar todas as obras.
Ponderamos que seria possível ir ao museu ainda pela manhã
de Domingo, almoçar e voltar a Boston a tempo de devolver o carro. Agradecemos
a sugestão da moça simpática e decidimos por essa alternativa.
Na volta para Lenox, passamos num lago que ficava à beira de
um restaurante indiano pelo qual havíamos cruzado algumas vezes durante nossos
passeios de carro. Sempre tinha alguém por ali, pescando, andando de barco ou
mesmo nadando. Resolvemos parar para vê-lo de perto e cheguei a pensar em tirar
os sapatos e sentar na beira do lago, com os pés empoeirados da trilha dentro d´água.
Quando já sentia o frescor da água me aliviando o calor, avistei um cartaz
avisando sobre alta incidência do que me parecia ser um molusco esquisito e fui
subitamente demovida da ideia. Ficamos só nas fotos, na admiração do lago e seu
entorno.
Voltamos ao Hampton Terrace e, depois de uma breve
sonequinha, seguimos para nosso último concerto em Tanglewood.
Assim como nos dois dias anteriores, os profissionais do
piquenique já estavam confortável e sofisticadamente acomodados, aproveitando o
fim de tarde. Gostaria de ter me despedido dessa atividade também, mas com o
almoço farto tendo terminado poucas horas antes, não conseguíamos nem pensar em
comida ou bebida. Assim, só passeamos pelos campos curtindo de longe a farra
dos outros.
O concerto daquela noite passaria também na concha acústica
e teria como repertório obras de Strauss, Rachmaninoff e o famoso Bolero de
Ravel. A violinista alemã do concerto anterior, Anne Sophie Mutter estava na
plateia, assim como uma centena de pessoas com roupas chiques. Ao que parece,
eram homenageados do concerto que tinha por nome uma Tanglewood Gala.
Haveria também, no programa, a participação de duas
sopranos, Sophie Bevan e Angela Denoke e também uma mezzo-soprano, Isabel
Leonard. Cada vozeirão de dar inveja a qualquer canarinho!
O Bolero de Ravel foi particularmente interessante de
assistir ao vivo. Começava apenas com a flauta, à qual aderiam novos instrumentos
a cada série melódica, até que toda a orquestra participava num arranjo sinfônico
apoteótico. A performance do maestro letão Andris Nelsons crescia junto com o
arranjo, de maneira que no fim, parecia que ele ia arranjar uma distensão
muscular.
Foi um desfecho perfeito, pois a obra popularíssima de Ravel
é quase didática para a percepção do caráter de cada um dos instrumentos e perfeita
pra empolgar apreciadores iniciantes da música clássica, como eu.
Como que para coroar nossa última noite de Tanglewood, o
concerto gala foi encerrado com show de fogos.
Completamos nossa noite de despedidas jantando no Gateways
Inn o maravilhoso hambúrguer com batatas doces assadas que parecem abóboras e
cerveja artesanal dos Berkshires, onde aproveitamos para agradecer mais uma vez
a hospitalidade de Eiram.
Meia hora depois do jantar, subíamos a escadinha da cama (só
eu usei, porque o Eduardo obviamente não precisava dela) para a última noite daquela
viagem a ser passada nos Berkshires.
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