segunda-feira, 18 de agosto de 2014

10 de julho: de Martha´s Vineyard aos Berkshires, no nosso primeiro dia de Tanglewood

Na noite anterior, o Eduardo já tinha descoberto que se voltássemos pelo mesmo porto pelo qual havíamos chegado, Vineyards Haven, teríamos de esperar até o início da tarde. Precisávamos chegar relativamente cedo em Lenox, ainda a tempo do primeiro concerto que assistiríamos do festival Tanglewood, a 3 horas de viagem de Woods Hole, onde estava nosso carro. Assim, optamos pelo ferry de 11h, saindo de Oak Bluffs.

Acordamos já de malas prontas, apenas pra descermos, tomarmos nosso café (omelete pra mim e quiche pro Eduardo), despedirmo-nos de Fred e pegarmos o táxi para o porto de Oak Bluffs. Chegamos adiantados e aproveitamos pra tirar algumas fotos. Era curioso que fosse o mesmo lugar em que havíamos estado no dia anterior, um pouco antes de cair a noite. A luz farta daquele fim de manhã ensolarado parecia tornar o cenário completamente diferente.






Quando  o ferry chegou, desembarcaram muitas pessoas, com malas que variavam de tamanho, fazendo-nos supor haver tanto veranistas que ficariam um tempo maior na ilha, quanto turistas que chegavam mais cedo pra curtir o fim de semana, pois era quinta-feira.

Entramos no ferry, ao mesmo tempo ansiosos pela próxima parte da viagem e melancólicos por estarmos deixando Martha´s Vineyard. Eu, particularmente, sempre me sinto um pouco assim quando vou embora de algum lugar, principalmente uma ilha tão charmosa quanto aquela.


Desta vez, passeamos um pouco mais dentro do barco durante o trajeto, subindo até o convés, que fazia as vezes de terraço. Infelizmente, a alergia ainda não tinha me largado, por isso não arrisquei ficar no vento forte que soprava, embora ele não parecesse estar incomodando as muitas pessoas que aproveitavam a viagem ali.




Quando chegamos a Woods Hole, nos impressionamos com a organização da saída. Uma fila de encarregados gritavam os nomes dos estacionamentos –  inclusive o Palmer Avenue Lot, onde estava nosso carro –  e indicavam seus respectivos ônibus, não deixando espaço pra dúvidas. Em vinte minutos, pegávamos nosso “possante”, rumo a Lenox.

No entanto, antes de chegarmos lá, decidimos dar uma paradinha numa das cidades que ficava nos arredores de Boston, Newton, que estava no nosso caminho, pra conhecermos uma loja de artigos para instrumentos musicais. O Eduardo queria comprar cordas pro seu violoncelo e também para o de seu professor e dentre os lugares especializados que já havia pesquisado, escolheu a Johnson String Instrument.

Fiquei impressionadíssima com o tamanho do lugar, que devia se relacionar com a demanda que instrumentos de música erudita naquela região. O Eduardo me explicou que as escolas costumavam não só estimular, mas incentivar a manutenção da tradição desse estilo de música entre os jovens, com diversos grupos escolares. Principalmente nos arredores de Boston, cuja orquestra sinfônica era de grande renome nesse universo.



Já passava de 2 da tarde, quando saímos da Johnson String Instrument e, como estávamos perto de Waltham, cidade onde fica a Brandeis University e onde o Eduardo morou, decidimos fazer nova visitinha rápida, desta vez com o destino específico do restaurante indiano onde ele adorava almoçar no intervalo entre as aulas. Não tínhamos certeza se encontraríamos o local funcionando depois de tantos anos, mas o Eduardo tinha a impressão de tê-lo visto quando passamos de carro pela região, alguns dias antes, com Martha e Taka.

Para a felicidade de nós dois, que já estávamos famintos, o restaurante ainda existia e estava aberto, mesmo sendo quase 3 da tarde. Em razão do horário, não havia ninguém e o buffet foi praticamente exclusivo. O Eduardo não se conteve e comentou com os garçons que aquele era um de seus restaurantes preferidos na juventude e que estava retornando ali depois de muitos anos. Eles ficaram enumerando com o Eduardo todos os restaurantes orientais que havia naquela rua e que continuavam servindo aos muitos estudantes da região.




Depois da lauta refeição, partimos novamente para a estrada, agora diretamente rumo a Lenox. Se na ida para Woods Hole, aquele asfalto tapete já tinha sido um sonífero pra mim, quanto mais depois de um almoço self service. Só fui conseguir começar a manter os olhos abertos já muito perto de Berkshire County, ou simplesmente Berkshires, como é chamada a região serrana onde fica Lenox e diversas outras cidades, como Pittsfield, Stockbridge, Lee e Great Barrington – essas três últimas, muito próximas a Lenox e que tivemos o prazer de conhecer.

O cenário bucólico daquela região seguia precisamente a cartilha imaginária que construímos a partir dos filmes americanos. Além disso, o Eduardo havia me emprestado um livro fantástico, chamado A Marca Humana, quase todo ambientado ali nos Berkshires, que li durante a viagem e terminei depois de voltar pra casa. Foi muito divertido comparar as descrições locais do autor, Philip Roth, com os ambientes que eu estava vendo de fato.













Chegamos por volta de 17h ao Bed and Breakfast, chamado Hampton Terrace, onde Stan, o dono do lugar, já estava nos esperando. A casa principal, onde ficaríamos, remetia àqueles filmes americanos (de novo) onde toda uma família de cidadãos urbanos retornam à casa dos pais para o feriado de Ação de Graças ou mesmo para o Natal. Salas enormes, com muitos retratos, papéis de parede floridos, mesa de jantar gigantesca, cristaleiras com louças diversas, lareira, poltronas e sofás com cara de quentinhos, hall amplo, escada larga com fotos de família nas paredes e por aí vai.








Nosso quarto era gigante, com lareira e vista para a rua principal, o que não significava barulho de forma alguma, pois pouquíssimos carros cruzavam ali, mesmo sendo aquela a alta estação. A cama era larga e altíssima, contando até com uma curiosa escadinha de dois degraus em um dos lados!




O banheiro parecia ter sido adaptado de algum outro quarto, o que o tornava ainda mais gigante, além de ter a vista do balcão central da fachada.



Essa porta de vidro que aparece no canto esquerdo da foto acima era coberta com uma cortina e, na frente dela, havia uma cristaleira com uma coleção enorme de bonecas... assustadoras. Rs.


Nosso quarto ficava no canto esquerdo. Uma das janelas era essa que aparece à esquerda, com vaso de tulipas. O banheiro ficava onde está esse janelão central, com o balcão.

No folheto de boas-vindas, descobrimos que o Bed and Breakfast contava também com um anexo, na parte de trás do terreno, além de piscina aquecida e aí tivemos noção do tamanho da propriedade do Hampton Terrace.


 Bem na frente, havia uma grande igreja episcopal e, em volta, uma diversidade de outros “inns”, quase todos derivados de propriedades que, no passado, haviam sido mansões da alta aristocracia americana, que costumava passar o verão no fresquinho dos Berkshires.


Havíamos decidido descansar um pouquinho antes do festival e talvez levar algo pra comer nos famosos gramados de Tanglewood – numa tradição cuja dimensão só pudemos conceber ao vivo – mas felizmente, o Eduardo deu uma conferida nos ingressos e descobriu que o concerto daquela noite começava quarenta minutos depois, ou seja, uma hora mais cedo do que os das seguintes, que eram só às 20h30.

Corremos pra nos arrumar, mas deu tudo certo porque não havia trânsito e era muito fácil de estacionar naquele terreno enorme.

O Eduardo me explicou que Tanglewood começou como muitas das histórias memoráveis dos EUA: uma doação privada de uma propriedade gigantesca para a Orquestra Sinfônica de Boston. Desde 1934, então, o Festival de Tanglewood – nome da propriedade – passou a arrebatar multidões com seus muitos concertos de música erudita, movimentando a vida cultural das pacatas cidades e vilas do condado de Berkshire.

Como chegamos em cima da hora, não houve muito tempo pra explorar os campos do lugar, confortavelmente tomado por pessoas que ali faziam piqueniques. Fomos diretamente para o Seiji Osawa Hall, onde assistiríamos ao Emerson Quartet, cujo repertório daquela noite eram peças do compositor russo Dimitri Shostakovitch.

Logo de primeira, reparamos na equipe de apoio, toda formada por velhinhos e velhinhas sorridentes e orgulhosos, numa média de idade que parecia ultrapassar os 80 anos. O Eduardo me explicou que se tratavam de voluntários da região, que aproveitavam a temporada de Tanglewood para combinar uma ocupação leve como aquela e a possibilidade de assistir a concertos incríveis de graça.

Bastava estabelecer contato visual com uma daquelas cabecinhas brancas, ou mesmo fazer cara de dúvida, que eles já vinham com um animado “May I help you? Let me see your seat, please!” e indicavam o caminho do assento.

Depois de sentarmos nos nossos lugares, pudemos perceber a arquitetura incrível do Osawa Hall, batizado com o nome do maestro que ocupou essa função por mais tempo na Orquestra de Boston. O lugar havia sido construído em um dos suaves declives que formavam a natural geografia do terreno. O palco ficava no ponto mais baixo, rodeado dos assentos que formavam plateia ao centro e balcões nas laterais. A cereja do bolo, no entanto, estava no que deveria ser a parede mais distante do comprimento, atrás da plateia, mas que não existia. O teatro ali aberto permitia que, dos gramados, ao ar livre, se pudesse também assistir aos concertos. Assim, tanto se tinha assentos tradicionais de um excelente teatro, quanto lugares descontraídos, valorizando de uma forma muito peculiar as características de Tanglewood.






O público que assistia do lado de fora, além de enfatizar a personalidade do festival, oferecia também uma diversão à parte. Era muito interessante eventualmente intercalar a observação entre os músicos e os grupos sentados em toalhas de piquenique, alguns envoltos em cobertores, com tacinhas na mão. Ao passo que caía a noite, algumas velas foram acesas, deixando tudo ainda mais bonito e charmoso.


Num dos dois curtos intervalos, demos uma passadinha naquele espaço pra perceber o ponto de vista de quem assistia dali. Não fosse eu uma friorenta de carteirinha (que já batia queixo debaixo do meu casaco de couro), teria sentido inveja deles.





Nessas duas pausas, tentamos dar uma voltinha no entorno do teatro pra observarmos um pouco do complexo que formava Tanglewood, mas como era um tempo muito curto, só deu pra tirar poucas fotos...



Iniciante que sou no universo da música erudita, fiquei com um pouco de dificuldade de me envolver com as peças daquele concerto. O Eduardo me explicou que, de fato, Shostakovich não era era um compositor muito fácil. Russo, relativamente contemporâneo, falecido em 1975, seu estilo assumia uma tendência mais soturna, indo deliberadamente contra ao que se espera de uma melodia, mostrando a influência das experiências dramáticas que enfrentou no seu país.


Havia um programa impresso de Tanglewood distribuído a cada concerto e o daquela noite contava um pouco mais da melancólica história de Shostakovich e suas motivações para compor.
 “Ao passo que ele enfrentava uma saúde debilitada, a velhice e a mortalidade, o compositor passou a procurar uma verdade pessoal e valores espirituais eternos em meio à hipocrisia predominante e à corrupção moral pervasiva da sociedade comunista soviética, durante a chamada ‘era de estagnação’. Na intimidade da música de câmara, Shostakovich afirmava tanto seu credo no poder da criatividade individual, quanto no medo das massas.”


Terminado o espetáculo, saímos calmamente com a organizada multidão e não tivemos problemas de trânsito pra sair com o carro. Impressionante, levando em conta o fato de que praticamente todo mundo saía ao mesmo tempo.

Deixamos o “possante” no Hampton Terrace e nos pusemos à tarefa inglória de achar um lugar pra jantar. Mesmo já sendo o fim da viagem, ainda não tínhamos nos acostumado com a ideia de que as pessoas jantam cedo na Nova Inglaterra. Andamos por algumas ruazinhas de Lenox, mas todos os bares e restaurantes que encontramos abertos não estavam mais servindo refeições. Com a alma repleta de música, mas com o estômago vazio, começou a bater um desespero. Não parecia haver nos Berkshires um Pizza Hut salvador da fome da madrugada!

Felizmente, lembramos que havia um hotel bem ao lado do nosso, que parecia ter um restaurante e, ao menos quando passamos, tinha um luminoso com “open” escrito. Era o Gateways Inn que, em contraponto a todas as outras propriedades à volta, tinha um enorme portão (vide o nome) circundando a casa. Quando chegamos perto de uma das entradas, um sensor ativou um belo holofote e vimos que a porta estava trancada. Demos a volta até a entrada principal, sempre sob o olhar atento de um senhor que nos observava de dentro do Gateways Inn.

Ele veio nos receber na porta e, diante da nossa expressão de desespero depois de responder negativamente sobre se ainda estavam servindo jantar, logo acrescentou que a cozinha estava fechada, mas poderia tentar fazer um prato frio pra nós. Agradecemos quase chorando de alegria e fomos nos sentar no bar, onde uma simpática garçonete, chamada Paula, nos serviu algumas bebidas.

Alguns minutos depois, Eiram, que depois soubemos ser o nome de nosso benfeitor, chegou com um delicioso prato de acepipes do oriente médio. Bom de papo, Eiram contou ser israelense (de onde concluímos ser a origem das preocupações com segurança pouco usuais naquela região) e que havia adquirido aquele Inn há cerca de 10 anos. A mansão havia sido propriedade de Mr. Proctor, dos famosos Proctor & Gamble. Deu-nos dicas valiosas sobre o museu de Norman Rockwell, em Stockbridge e de um outlet imperdível, na vizinha Lee.

Devidamente devorado nosso jantar, percebemos que já não havia mais nenhum cliente no restaurante e nos preparamos pra sair. Eiram nos sugeriu que almoçássemos lá no dia seguinte e nos mostrou o salão onde Norman Rockwell supostamente costumava esboçar algumas de suas capas para o Saturday Evening Post.




Despedimo-nos com a real intenção de retornar no dia seguinte e andamos cerca de 30 metros até o Hampton Terrace, que nos aguardava com sua atmosfera aconchegante e cama de escadinha.

Até mais!

Nenhum comentário:

Postar um comentário