segunda-feira, 4 de agosto de 2014

9 de julho: dia inteiro na linda Martha´s Vineyard (identidade secreta de Amity Island)

Faltando apenas 5 dias pro nosso retorno, começava aquela tristezinha de pensar que a viagem já estava acabando. Por outro lado, o cansaço já tornava o ato de acordar bem mais preguiçoso, de maneira que só conseguimos descer para o café um pouquinho antes do horário de encerramento.

A refeição era servida nos salões cujas fotos mostrei no post anterior, com a diferença de que, àquela hora, praticamente todas as mesas estavam repletas de hóspedes. Todos muito educadinhos, falando baixinho e me obrigando a ser incomumente discreta, pois não tive coragem de sacar minha câmera pra registrar as lindas panquecas de blueberry que comemos.

Fred, o dono da pousada, estava ali de olho em tudo e parecia ser uma de suas filhas quem servia aos hóspedes as três opções de pratos do café da manhã, incluindo nossas panquecas. Havia também café, chá, suco de laranja, além de uma pequena mesa de buffet com algumas frutas e tortinhas.

O dia havia amanhecido nublado, mas ao longo da manhã, foi-se abrindo um sol lindo. Com a luz bonita que entrava pelo Ashley Inn, foi possível perceber melhor a simpática e grandiosa casa. Um folheto explicativo contava ter sido construída em 1860, pelo capitão de embarcação baleeira William H. Crowell, após sua aposentadoria. Ele viveria ali com sua mulher e oito (!!!) filhos.

O informativo – que, por sinal, era muito bonitinho, com delicadas ilustrações em nanquim – ainda fornecia diversos dados históricos interessantes sobre o local. No fim do século XIX, Mary, filha de Crowell, e seu marido, o Capitão George W. Brown, assumiram a responsabilidade da propriedade. Capitão Brown havia sido famoso no comando dos navios Syren e Pilgrim, neles singrando mares do mundo inteiro e “trazendo tesouros exóticos de lugares distantes” (por mais politicamente incorreta essa última frase possa soar hoje, há de se contextualizar que naquela época a consciência era outra). A casa teria permanecido na família por mais algumas gerações – Gertrude, filha de Brown e depois sua neta, Olive – até que em 1983, para nossa alegria, tornou-se o Ashley Inn. Faltou só dizer que o ilustre casal Ana Paula e Eduardo teria se hospedado ali em sua Lua de Mel, no verão de 2014, mas isso terá de ficar pras próximas edições  ;-P .


Saímos então pra descobrir a ilha, começando por Edgartown, cujo aperitivo havíamos tido na noite anterior, quando andamos até o centro para jantar. A diferença é que, naquela manhã,  se revelava sob um sol maravilhoso, começando pelo próprio Ashley Inn...


A arquitetura da cidade é totalmente baseada nos edifícios pequenos e grandes casarões, todos revestidos de ripa de madeira, com muitas e grandes janelas, no meio de terrenos com gramados verdinhos, enormes árvores e jardins muito bem cuidados.







Outro ponto interessante de Martha´s Vineyard é a frequência de nomes de origem portuguesa nos mais diversos locais, incluindo o memorial dedicado aos habitantes da ilha que combateram nas grandes guerras. A presença de Pereiras, Bittencourts, Silvas e Melos era abundante naquelas placas.


Seguimos pela Main Street até o cais, onde mirantes oferecem uma bela vista das marinas e as pequenas lojinhas e restaurantes fazem a festa dos veranistas.





(panorâmica de cima do Memorial Wharf)

(Memorial Wharf. Atrás do Eduardo, para a Chappaquiddick ferry)



(No Memorial Wharf, com a outra ponta da ilha ao fundo)





Depois de um longo passeio pelo cais e pelo centro, voltamos ao Bed and Breakfast pra procurarmos informações sobre city tours que poderíamos fazer. Fred não estava na recepção, mas encontramos uma diversidade enorme de folhetos na sala do computador. No entanto, havia pouca coisa falando sobre traslados e, na maior parte, diziam respeito a passeios que envolviam atividades aquáticas, o que não era do nosso interesse. Chegamos a ligar pra um dos anúncios e perguntar se havia algum tipo de city tour. Responderam-nos que sim, mas a US$120,00 por pessoa e por hora!!!! Desistimos e resolvemos fazer algo por nossa conta mesmo, usando os ônibus cujo passe único descobrimos serem vendidos no centro turístico, bem pertinho de nós.

Curiosamente (mas não estranhamente), não havia um folheto sequer mencionando um aspecto pitoresco da ilha e que poderia render bons passeios temáticos. Era o fato de ela ter ambientado um dos filmes mais famosos da história do cinema: Tubarão. A fictícia Amity Island, cuja costa tinha sido aterrorizada pelo lendário bichão carnívoro de Spielberg, era na verdade, conforme descobrimos depois de retornarmos ao Brasil, toda baseada em Martha´s Vineyard. O assunto chegou a ser abordado no traslado do porto de Vineyard´s Haven até o Ashley Inn, pela motorista Susan, mas havíamos entendido que uma ou outra cena havia sido gravada em praias da região e não que o cenário do filme tivesse sido totalmente inspirado e ambientado em Martha´s Vineyard.

Curiosamente, também, escrevo este post no dia seguinte a assistir Tubarão (ou Jaws, no original) na televisão. Ontem à noite, por acaso, vendo o canal de clássicos, anunciaram que Jaws (o nome original, “Mandíbulas”) iria passar em seguida. Eu e Eduardo decidimos ver, não apenas por ser um bom filme, mas também porque gostaríamos de tentar identificar as cenas rodadas em MV.

Foi uma coincidência divertida, pois só depois dessa reprise é que nos demos conta de que Amity Island era Martha´s Vineyard, sem tirar nem por. Reconhecemos vários locais, cujas fotos já postei, como o porto de Edgartown, onde fica o Memorial Wharf, o farol de Edgartown, o cais da balsa Chappaquiddick, além das próprias casinhas em estilo inconfundível.

O Eduardo também achou possível que uma das lojas em que fomos comprar alguns itens de uso pessoal pudesse ser a mesma em que Roy Scheider, que fazia o protagonista do filme, o delegado Brody, comprava material para cartazes que avisariam do perigo nas praias. Confirmamos a suposição depois, num site que compara locações de filmes com os lugares na atualidade (http://thennowmovielocations.blogspot.com.br/2013/08/jaws.html). Nesse mesmo site, descobrimos vários outros pontos usados pra filmagem de que não havíamos suspeitado ter visto. Por exemplo, a praia de State beach, no caminho para Oak Bluffs, que viríamos a conhecer na tarde do dia que relato neste post. Ela foi cenário de uma das cenas mais famosas, onde uma criança era atacada, gerando grande pânico entre os banhistas. Outra locação importante foi o lago Sengekontacket e a ponte que leva até ele, por onde o tubarão passava e fazia mais uma vítima, num ataque de que o filho mais velho do delegado Brody escapa por pouco.

(balsa de Chappaquiddick)

(Martha´s Vineyard Hall fazendo as vezes de Amity Island Hall - foto do site)

(Mercadinho onde fizemos compras, esquina de Main Street com Water Street - foto do site)

(fotos do site)

(fotos do site)

(State Beach - foto do site)

Ficamos tão empolgados com o filme – tanto pelas locações recentemente conhecidas por nós, quanto pela narrativa criativa e afiada do jovem Spielberg – que o Eduardo resolveu  tocar a música tema nos seus estudos de violoncelo. Gravamos e resolvemos incluir no post, como homenagem pela “performance” de Martha´s Vineyard como Amity Island, mas não consegui fazer o upload de jeito algum... :-(

Voltando a Martha´s Vineyard da Lua de Mel, decidimos a fazer uma exploração por nossa conta e voltamos ao centro para almoçar. Em vez de seguir pela Main Street, fomos por uma passagem entre as casas e nos deparamos com um jardim interno lindo e arborizado. Era o Village Green. Havia algumas poucas pessoas ali sentadas nos bancos espaçados, inclusive um sujeito que almoçava sozinho seu sanduíche. Resolvemos dar uma paradinha pra algumas fotos.



Chegando ao centro, escolhemos o restaurante The Wharf para o almoço, onde simpáticos garçons mineiros nos atenderam. O lugar era bem grande, com interior todo de madeira, como se fosse um barco. Vimos um bar, numa área separada, onde o Eduardo teve a ideia de ficarmos mais tarde para assistir ao segundo jogo de semi-final, Holanda x Argentina.




De entrada, decidi experimentar o Clam Chowder, um creme de mariscos presente em quase todos os cardápios que vimos, desde Boston. Foi prová-la e me arrepender de ter feito isso tão tarde. Que delícia! De prato principal, pedi um sanduíche de peixe e o Eduardo um prato de camarão.



Decidimos dar mais uma volta pelas ruas, antes de assistir à última semifinal daquela Copa num local em que, graças à grande influência portuguesa e brasileira, talvez fosse mais empolgado com o evento.

Vimos um bicicletário muito charmoso...


E casas de tirar o fôlego, enormes, com os jardins e canteiros mais bem cuidados do mundo. O tamanho dessa árvore nos impressionou! Repare a proporção em relação à cerca e à casa ao fundo.






Andamos até a praia, cheia de barcos e rodeadas de mansões...






Até que deu a hora do jogo e voltamos para o bar do The Wharf...



Conseguimos um lugarzinho pra sentar, bem próximo à TV. Foi um pouco estranho ver um jogo de semifinal de Copa do Mundo, num bar, com um grupo ao lado não dando a mínima e conversando aos berros. De tempos em tempos, um homem do grupo fazia uma tentativa infrutífera de nos deixar ver direito o jogo. Ele falava pros amigos, “Pessoal, vamos falar mais baixo, tem um jogo muito importante passando agora”. Em determinado momento, uma mulher respondeu, “Mas importante, tipo o quê? Tipo ganha tudo? Tipo isso?”. Além disso, todo mundo no bar (fora o grupo ao nosso lado, o resto assistia ao jogo) estava torcendo para a Argentina, inclusive meu marido!

Tinha uma mulher de cabelo curto, grávida, que gritava e batia palmas absolutamente toda vez em que o Messi pegava a bola, como se ele fosse fazer um passe de mágica, “Isso aí, Messi!”, “Lá vamos nós, Messi!”, “Vai, Messi!”, “Mostre a eles, Messi!”. Afff!!! Fiquei com a impressão de que o único jogador da seleção argentina que ela conhecia era o Messi. Finalmente, depois dos pênaltis, quando a Argentina ganhou, achei que o bar inteiro fosse gritar no meu ouvido, por ser a única pessoa torcendo pela Holanda, mas nem me deram trela.

Profundamente arrependidos por termos perdido um tempo precioso, fomos finalmente pegar nosso ônibus e passear pela ilha. Nossa ideia era ver o por do sol em Menemsha, no outro lado, onde o Trip Advisor recomendava um bar com lagostas maravilhosas. No entanto, como seriam 3 ônibus e, até chegarmos lá, o sol já teria se posto, decidirmos ir apenas até Oak Bluffs, um outro povoado bem bonito e famoso de Marthas Vineyard.

Passamos, então, pela praia de State Beach, cujo papel famoso no cinema eu já citei...


e fomos até o porto de Oak Bluffs, onde a linda luz do entardecer sobre a marina fez as fotos parecerem pinturas...





Depois de aproveitarmos um pouco a paisagem, pegamos o mesmo ônibus, no sentido da volta e retornamos à parte povoada de Oak Bluffs, onde havia um gramado gigantesco, com um coreto bem ao centro e rodeado de casas bem diferentes da predominância branquinha que vimos em Edgartown.






Entramos nas ruas auxiliares de Oak Bluffs e vimos uma série de bares, restaurantes e lojinhas, numa área comercial que nos pareceu bem maior e popular do que o centro de Edgartown.

A noite já havia caído e resolvemos jantar por ali. Nós havíamos esquecido no hotel a lista de indicações de restaurantes, mas, coincidentemente, passamos em frente ao Offshore Ale Company, em que ostras e cervejas destacados no Trip Advisor haviam sido um de nossos presentes de casamento.


Entramos e, logo de cara, estranhamos o estalar constante de casquinhas sob nossos pés. Eram migalhas de casca de amendoim que cobriam todo o assoalho do restaurante!


Vimos um enorme barril na entrada, cheio de amendoins e supomos ser tradição na casa o ato de jogar as cascas no chão. Por via das dúvidas, o Eduardo resolveu confirmar com garçonete que respondeu positivamente, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Não queríamos necessariamente comer amendoins, mas pegamos um punhado, só pra ter a experiência de tacar as cascas no chão, sem culpa. Confesso que não me senti à vontade jogando lixo ao lado do meu pé, nem pisando nele, mas, tradição é tradição.


Pedi algumas ostras e um Chowder Clam, na tentativa vã de recuperar o tempo que perdi sem comer aquela iguaria e o Eduardo lulas empanadas. Depois, comemos uma pizza.


O restaurante estava bem cheio e ficamos reparando na decoração, repleta de pequenas embarcações e motivos marítimos, além de detalhes de malte e percentuais de álcool descritos nas paredes e no quadro do bar. É que a casa tinha uma seleção enorme de cervejas, que, junto com as ostras, eram o grande atrativo da casa. No entanto, tínhamos gastado nossa cota de disposição pra beber chopp no jogo da Copa, quando passamos duas horas no bar do The Wharf e pedimos alguns, pois não queríamos parecer brasileiros espertinhos. Ou seja, não provar a seleção do Offshore Ale Company foi mais um desperdício graças àquele Argentina x Holanda!




Checamos o horário do ônibus de volta no nosso folheto e vimos que ainda era possível uma última voltinha em Oak Bluffs antes do retorno. Acabamos um local que parecia ter um fluxo grande de pessoas e reparamos, por uma das janelas, que havia um carrossel dentro dele. Resolvemos dar uma espiada e, além do carrossel, também tinha vários jogos de fliperama, naquele estilo de cidade pequena. Eis que, na sala dos jogos, eu me deparei com nada menos do que o Zoltar, aquele vidente que transformava o Tom Hanks de 11 anos em um homem de 30, no filme Quero Ser Grande. De repente, eu me empolguei à toa e ele é fácil de encontrar, mas eu nunca tinha visto um pessoalmente.



O Eduardo descobriu que o carrossel era muito antigo e ficamos um tempo olhando. Em determinado momento, uma música começou a tocar e todo mundo que estava no brinquedo passou a tentar pegar umas argolas que saíam de um braço na parede em volta. Tinha umas meninas muito rápidas, que pegavam umas 5 argolas de cada vez, em especial, uma que eu podia jurar ser brasileira, com seu cabelo enorme liso e escorrido. Na hora, acabei me enrolando com a máquina, ao tentar selecionar um modo que captasse melhor movimento e acabei só fazendo esta foto pífia.



 Queria ter ficado mais pra brincar também, mas já era a hora do nosso ônibus e não queríamos dormir muito tarde, uma vez que, no dia seguinte, iríamos para Lenox e nosso primeiro dia de shows no festival de Tanglewood!

Voltamos vendo a praia de State beach à noite e ouvindo um adolescente brasileiro tentando explicar pra algum americano o desastre da partida do dia anterior. Só reparamos que ele era patrício pelo discurso, pois pelo sotaque, era impossível perceber. Provavelmente, ele fazia parte do quase um terço de brasileiros que compunha a população local de Martha´s Vineyard.

Em vinte minutos, chegávamos a Edgartown, onde fazia um friozinho gostoso de povoado a beira-mar.

Subimos pro nosso quarto de casinha de bonecas, dormir a última noite na ilha.

Até mais!


Nenhum comentário:

Postar um comentário