Acordamos atrasados, no limite para o café da manhã e
descemos correndo pra não perdermos o horário.
A mesa central estava ocupada por 3 casais, numa idade média
de 60 anos, conversando animadamente no que parecia ter sido, pelo papo, um
grupo formado naquela hora. Preferimos a
prerrogativa que um “casalzinho em lua-de-mel” nos trazia e, depois de darmos
um “bom dia” a todos, escolhemos uma mesinha de dois, numa espécie de varanda
fechada na enorme sala de jantar do Hampton Terrace.
Pelas conversas que ouvíamos da mesa ao lado, onde logo
depois se sentaram duas mulheres, e do grupo na mesa principal, todos estavam
hospedados no Bed & Breakfast para assistir ao festival de Tanglewood.
Stan passava de mesa em mesa puxando papo e, para cada um
que começava a se servir no buffet, ele se colocava orgulhosamente ao lado,
explicando item a item. Se eu fosse ele, ficaria muito orgulhosa também, pois baseados
no intensivão de panquecas que fizemos durante toda a viagem, podíamos afirmar
com absoluta propriedade que as do Hampton Terrace Inn, de blueberry, foram as
mais saborosas. Minha boca enche d´água só de lembrar.
Quando chegamos no Inn, no dia anterior, perguntamos a Stan se havia algum tipo de programação local para assistir aos
jogos da Copa. Pensávamos em ver a semi-final Brasil x Holanda com Juan, amigo
do Eduardo da época da faculdade, sua mulher e filhinho, com quem iríamos nos
encontrar no dia seguinte. Eles moravam em Nova York, mas quando passamos por
lá no primeiro destino da viagem, estavam no Alasca. A única condição do
Eduardo foi a de fingirmos sermos portugueses, pra não corrermos o risco de
ouvirmos novamente “Brasileiros? Oh, eu sinto muito!”, uma frase escutada mais
de uma dúzia de vezes, desde o fatídico 7 a 1 para a Alemanha.
Em resposta, Stan havia comentado que havia um cinema nos
Berkshires, node era possível não só assistir ao jogo num telão, mas também
tomar vinho. No entanto, naquela sexta-feira, quando íamos subindo pro quarto,
Stan veio falar conosco sobre a possibilidade de assistirmos ao jogo com seus
filhos, em um evento que eles estariam programando. Disse que seria
provavelmente na casa de um de seus amigos e que certamente nos divertiríamos
muito. Achamos, além de extremamente gentil, uma ótima oportunidade pra
conhecer melhor o comportamento local, mas precisávamos antes ver o que Juan e
sua família tinham em mente. Agradecemos de antemão e ficamos de dar a resposta
no dia seguinte.
Decidimos passar o resto da manhã e o início da tarde num outlet vizinho. Nenhum de nós dois somos
muito afeitos a programas consumistas em viagem. Preferimos gastar nosso tempo
em dinheiro conhecendo os lugares para onde vamos e sua cultura (o que inclui,
obviamente, sua gastronomia), mas como resistir ao apelo de um belo outlet
americano a 20 minutos de carro?
Seguimos rumo ao Lee Premium Outlet, indicado no dia
anterior por Eiram, e achamos o caminho muito facilmente. Não deve ser um
outlet muito conhecido por aqui, pois estava bem vazio e, dos conterrâneos que
costumam ser figurinhas fáceis nesses lugares, só vimos 3. Dois deles
reconhecemos de longe: um casal que andava por todas as lojas com uma mala
enorme.
Numa voltinha rápida, vimos lojas da Lacoste, Hugo Boss,
Michael Korrs, Ralph Lauren, Gap, Nike, Banana Republic, Levi´s e Brooks Brothers.
Gastamos umas duas horas ali, no dilema terrível de equilibrar a fatura do
cartão e os preços inacreditavelmente baratos. Chegamos à mesma conclusão de
que algumas amigas minhas já haviam chegado há tempos. Vale a pena consumir o
mínimo possível durante dois anos, pra então fazer o guarda-roupa pelos
próximos dois num outlet americano. Com os preços das roupas e acessórios que
temos no nosso país, é possível ainda economizar a passagem. O casal com a
malona itinerante não era de todo sem razão de ser, afinal.
Terminado o estrago, já eram quase 2 da tarde e resolvemos
retornar a Lenox, mais precisamente ao Gateways Inn, onde pretendíamos almoçar
e agradecer novamente a Eiram a gentileza do jantar salvador e a excelente
indicação.
Chegando lá, entramos pela porta que, na noite anterior
estava trancada, e sentamos no amplo e iluminado salão, com janelas enormes,
que deixavam passar uma bonita luz dourada, fruto de uma tarde ensolarada, mas
fresca ao mesmo tempo.
Fomos servidos por um rapazinho jovem, que não parecia ter
chegado aos 18 anos. Logo soubemos ser Mattan, filho de Eiram, que veio nos
cumprimentar. Sugeriu que provássemos uma das cervejas locais, a Berkshire
Mountain, proposta que nós mais do que prontamente aceitamos. Começamos com a
Scottish Ale, deliciosa, que saboreamos na canequinha do próprio Gateways Inn.
Pedi de entrada um Gazpacho, que veio com uma divina
casquinha de queijo que o Eduardo me surrupiou.
Depois, fui de salmão com salada grega e ele de hambúrguer
com abóboras assadas. Dessa vez, fui eu que surrupiei alguns pedacinhos de
abóbora, que estavam espetaculares. Pra acompanhar, escolhemos outro sabor da
Berkshire Mountain, a Pale Ale.
Eu preferi essa segunda e o Eduardo a primeira.
Como o almoço foi longo e, no quesito cerveja, é meu marido quem manda, pedimos
outra Scottish Ale.
Seguimos empolgados e resolvemos pedir sobremesas. Eu
experimentei os primeiros cannolli da viagem (havia vários em Boston, cuja
oportunidade de provar eu desperdicei) e o Eduardo escolheu um trio de sorvetes
artesanais locais.
Depois desse verdadeiro banquete, decidimos dar uma rolad...
quer dizer, andada pelas ruas de Lenox. Mais uma vez, era uma tarde estupenda,
com tempo de céu azul, sol forte e brisa fresca; perfeito pra conhecer as ruas
arborizadas, com casas de madeira, muitos restaurantes e lojinhas charmosos,
com amplitude de espaço e verde para todo lugar que se olhasse.
Os espaços adjacentes à igreja católica da cidade mostram bem
a sensação de liberdade que a presença do verde, misturada com as grandes distâncias
entre os edifícios pode causar. Dava vontade de sair correndo pelos gramados impecáveis,
que nem criança, de braços abertos, de preferência com um labrador ao meu
encalço, como num filme rural americano. Na falta de um labrador e na presença
do bom senso, eu me contive, apenas fazendo pose comportada pra fotos, bem no
meio daquelas belezas.
Entrando na igreja, vimos que arquitetura interna, embora
simples, era também era muito charmosa. Ela reforçou que o conceito da
amplitude nos espaços é uma característica da região que não se restringe aos
lugares abertos. Ficamos imaginando que um percentual considerável da população
total de Lenox seria necessária pra gerar a lotação máxima da Saint Ann´s
Catholic Church, o que não parecia ser uma questão importante.
O tamanho das árvores também mereceu admiração. O fato de
serem enormes (repare a proporção em relação a uma casa grande, de dois
andares) e lindas era destacado pelo fato de à volta dela só existirem... mais
árvores. Toda essa vegetação formava uma palheta rica dos mais diversos tons de
verde, numa combinação perfeita com o aspecto pacato da cidade.
Não tínhamos a menor fome e não teríamos durante um bom
tempo, mas era um ponto de honra fazermos um piquenique nos gramados de
Tanglewood. Então, fomos até um centrinho comercial, onde havia uma loja com
uma infinidade de tipos de queijos, vinhos e o que mais de coisas gostosas se
pensasse. O tipo de lugar que só se pode ir sem fome, sob o risco de um estrago
no bolso e na balança.
Escolhemos alguns poucos itens, demos mais uma última volta
no entorno do Hampton Terrace e seguimos pra Tanglewood.
A propósito, este era o nosso lindo “possante”, o Chevrolet
Cruze que prestou bons serviços na Nova Inglaterra, cuja locação também foi
fruto de generosíssimos presentes de casamento.
Desta vez, chegamos cedo aos campos de Tanglewood, no nosso segundo dia de espetáculo. Mais um apreciadíssimo presente de casamento dado por amigos muito queridos.
Mesmo sendo cedo e o fluxo de carros ainda pequeno, vários e compenetrados funcionários organizavam o estacionamento dos automóveis num espaço imenso. Neste caso, a média de idade era o oposto das cabecinhas brancas que ajudavam no concerto, provavelmente não passando dos vinte anos. Tinha um rapazinho bem humorado que fez um show à parte, realizando várias coreografias dançantes pra indicar aos carros que direção tomar. Uma pena que eu não tenha tirado uma foto!
Mesmo sendo cedo e o fluxo de carros ainda pequeno, vários e compenetrados funcionários organizavam o estacionamento dos automóveis num espaço imenso. Neste caso, a média de idade era o oposto das cabecinhas brancas que ajudavam no concerto, provavelmente não passando dos vinte anos. Tinha um rapazinho bem humorado que fez um show à parte, realizando várias coreografias dançantes pra indicar aos carros que direção tomar. Uma pena que eu não tenha tirado uma foto!
Chegando aos gramados, já estavam sendo bem aproveitados
pelos profissionais do piquenique. Enquanto caminhávamos, escolhendo um lugar
pra sentar, víamos pessoas passando com carrinhos especiais, lotados de itens. Presenciamos
algumas pessoas montarem a estrutura e aí percebemos o quanto era cuidadosa a
preparação. Tinha uma manta impermeável térmica que ficava logo por cima da
grama e só depois dela é que ia a toalha bonitinha, que podia ser uma ou duas,
dependendo da quantidade de pessoas que ali iriam se aboletar. Depois, pratos, garfos, copos, taças, diversas
vasilhas com belisquetes, refeições, frutas, garrafas de vinho, água, sucos e
chocolates. Não foram poucas as vezes que vimos mesas retráteis sendo montadas,
com toalhas chiques e arranjos de flores. Castiçais com velas em tudo o que é
canto e belos cristais. Até guardanapos dobrados à la Martha Stewart havia por
ali!
Ou seja, foi com grande constrangimento que sacamos os itens
que compramos: queijo, castanhas, água mineral, vinho e chocolates. Foram todos
dispostos por cima do saquinho plástico de compras, enquanto nós sentávamos por
cima da ecobag trazida (a grama estava um pouco úmida).
Contrastando com as
belas taças à nossa volta, o vinho foi servido em copinhos de plástico mesmo e,
assim, improvisadamente preparados, participamos da sofisticada farofa de
Tanglewood. O constrangimento passou depois do segundo gole, como se pode
perceber...
Ainda tínhamos tempo até o concerto e resolvemos caminhar
mais um pouco pelos campos, que depois descobrimos terem uma dimensão muito
maior do que imaginávamos.
Em meio às inúmeras árvores, havia algumas casas que, depois
compreendemos, hospedavam parte da orquestra que se apresentava ao longo do
lendário festival.
Em alguns lugares, era possível avistar campos a se perder
de vista na bela serra dos Berkshires.
O sol ameno, já chegando às 8 horas da noite, provocava
sombras compridíssimas, o que nos convidou a fazer gracinhas românticas. Ora
bolas, estávamos em Lua de Mel, né?
Também o sol suave permitia registros sensacionais da luz
difusa sobre as árvores, compondo um cenário de contos de fadas.
Chegava a hora do nosso concerto, então nos dirigimos para a
concha acústica. Era uma estrutura robusta, enorme, mas que se harmonizava
perfeitamente com a estrutura local. Debaixo dela, no palco já havia alguns
músicos se preparando e, nas cadeiras da plateia, algumas pessoas já tinham se
acomodado. Assim como no Osawa Hall, havia lugares do gramado para se assistir
ao concerto. A partir de determinado momento, um perímetro à volta da concha
era delimitado pelos organizadores e, pra passar por lá, era necessário mostrar
os ingressos.
Novamente, os voluntários de cabecinha branca começaram a
assumir sua função de facilitadores e, por todo lado, ouvia-se o indefectível “May
I help you? Let me see your seat, please!”.
Orientados por um velhinho simpático, encontramos nossos
lugares, que ficavam na asa esquerda, bem próximos ao palco.
O concerto daquela noite teria peças do tcheco Antonín
Dvorák (tem um circunflexo de cabeça pra baixo no “r” que eu não consegui
encontrar no teclado). Elas seriam conduzidas pelo maestro letão Andris Nelson
e contaria com um solo da violinista alemã Anne-Sophie Mutter. O programa teve “The
noonday Witch,” Poema sinfônico, Opus 108, Concerto para violino em Lá menor,
Opus 53 e Sinfonia número 8 em Sol, Opus
88.
Desta vez, foi bem mais fácil de eu me envolver na música e
o fato de ser uma orquestra é sempre um componente emocionante, com aquele som
rico, sendo produzido naquele instante, numa intensidade que parece vibrar
dentro do peito da gente.
Eu já tinha assistido
ao uma gravação na TV de uma orquestra com esse mesmo maestro e o Eduardo já
tinha me chamado atenção pro fato de que seria o mesmo regente que veríamos em
Tanglewood. Daí, já sabia que ele era uma figura, com trejeitos e caretas
engraçadíssimas, às vezes lembrando um Mr Bean e seu paletó umas duas ou três vezes o tamanho correto, permitindo sua coreografia.
(foto da internet)
(foto da internet)
A violinista, por sua vez, impressionava não só pela segurança
e delicadeza com que tocava, mas também, do alto de seus 51 anos, era de causar
inveja com seus braços e costas impecáveis revelados por um tomara-que-caia. Será
que tocar violino também faz bem à sillhoueta?
(foto da internet)
(foto da internet)
Dessa vez, fui preparada para o frio, levando um xale de lã
com que me cobri quase do início ao fim do concerto. Terminado o evento, nova
demonstração de organização na saída do estacionamento e, em 5 minutos,
chegávamos ao Inn para nossa cama de escadinha.
Até mais!




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