segunda-feira, 28 de julho de 2014

8 de julho: últimas horas em Boston e ida para Martha´s Vineyard

Acordamos já pensando que a noite daquela terça-feira seria passada no nosso próximo destino, a ilha de Martha´s Vineyard. Assim, o dia começava com a decisão sobre o horário em que deveríamos deixar Boston, de carro, a caminho de Woods Hole, onde pegaríamos uma barca até a ilha.
                     
O Eduardo já havia pesquisado de antemão na internet os horários do transporte e viu que a última barca saía às 21h. Como Woods Hole estava a cerca de 2 horas de Boston, a programação ficou em compras pela manhã, check out no hotel até meio-dia, onde deixaríamos as malas até a hora da viagem e almoço. Depois, enquanto o Eduardo assistiria ao primeiro tempo do jogo das semifinais, Brasil  x Alemanha – não poderíamos supor, então, que fosse se tornar aquele tão famigerado evento – eu bateria pernas pela cidade. Sabiamente, eu continuava me recusando a perder tempo da viagem com jogos da Copa. Depois, pediríamos pra pegar o carro que já estava na garagem do hotel desde Domingo e, por volta de 17h, seguiríamos rumo a Woods Hole.

Andamos a Newbury Street até o fim, quando entramos na loja Brooks Brothers, com a seção masculina em promoção de 60%, na maior parte das peças. Ficamos nessa função de compras para o Eduardo, ele de provador e eu de consultora, na maior parte da manhã e acabamos não indo a praticamente nenhuma outra loja.

Fomos em direção ao Eliot pra deixar as sacolas das compras do Eduardo, mas resolvemos parar pra almoçar, pois até então, não tínhamos nem tomado café. Entramos num restaurante simpático, de esquina, chamado Met. Depois, constatamos se tratar do restaurante de um hotel, mas que tinha uma área externa grande, com muitas mesas já ocupadas. Achamos o bar mais confortável, até porque fazia um dia bem quente e lá ficamos. Pedi de entrada uma sopa de cebola, super saborosa, que o Eduardo acabou dividindo comigo. De prato principal, ele pediu um fish and chips e eu um hambúrguer de peixe.





Enquanto esperávamos pelos pratos, reparamos num homem que tomava uma cerveja tranquilo e satisfeito na mesa ao lado, enquanto lia algo em seu celular. De repente, uma mulher que parecia ser sua esposa chegou e disse não ter gostado do lugar, que preferia ficar do lado de fora, pois estava um dia muito bonito. Ele respondeu sério, mas resignado, “O que quer que você prefira, meu amor”, e completou com uma certa ironia, “Desculpe-me se este lugar não está bom”. Enquanto a mulher se dirigia à área externa pra pegar a mesa, o sujeito ficou resmungando baixinho, bufando, reunindo seus pertences, até que se levantou e saiu. Quando fomos embora, vimos os dois sentados numa mesa em que batia um pouco de sol e o sujeito com uma cara de mártir danada. Achamos graça desses retratos que são feitos a partir de breves observações das pessoas, pois ainda que seja a impressão mais errada do mundo, pra mim e pro Eduardo, aqueles dois ficaram para sempre marcados na memória como o oprimido e a chata, no restaurante Met da Newbury Street.

Voltamos ao hotel pra deixar as sacolas e nos separamos, combinando de nos encontrarmos novamente no saguão às 17h, pra pegarmos o carro e irmos embora. Como a manhã toda foi dedicada à consultoria do Eduardo, minha ideia era dar uma olhadinha nas promoções femininas e ainda comprar um tênis de corrida pra mim; tudo enquanto o Eduardo estivesse vendo o jogo.

Voltei pra Newbury St, pois, ainda bem próximo ao nosso hotel, havia uma filial da tão famosa Forever 21, cuja abertura no Brasil causou tanto estardalhaço. Nunca havia entrado nela e fiquei chocada com os 4 andares lotados de roupas... e gente. Constatei, mais uma vez, minha absoluta dificuldade em fazer compras com muitas opções. Gastei um tempo absurdo naquela loja, mais experimentando itens que acabei não levando do que qualquer outra coisa, e depois fui em direção à Nike, que era na outra ponta da rua.

Enquanto caminhava, era possível ouvir alguns gritos de torcidas nos bares à volta e fiquei com a inocente impressão de que já deveriam ter saído uns dois gols. Quando cheguei à Nike e um rapaz me indicou onde eu poderia ver os tênis que desejava, resolvi perguntar a ele se sabia o placar do jogo Brasil x Alemanha, até então. Ele riu e falou, “Claro, 4 a 0!”. Não sei se foi algo que eu entendi errado ou se foi apenas excesso de otimismo meu, mas respondi “Nossa, como pode? Eu achei que o Brasil fosse perder feio!”. E ele retrucou “Acho que você não entendeu. O Brasil está PERDENDO de 4 a 0...”, fez pequena pausa e completou, “Quer dizer, de 5 a 0. A Alemanha acaba de fazer outro gol!”. O sujeito gargalhou na minha cara e ainda emendou “Se você quiser, no segundo andar, temos muitas camisas da seleção brasileira. Já devem estar em promoção!” e, dito isso, ele e o vendedor ao lado caíram na risada. Ninguém merece! Fiquei com vontade de responder “E a camisa da seleção americana? Você chegou a ter à venda em algum momento? Quantas estrelas tem gravadas nela mesmo?”, mas diante do sem número de contra-argumentos que o sujeito podia me dar, me deixando ainda mais envergonhada, engoli aquele sapo enorme e fui comprar meu tênis. E pensar que foi só o primeiro dos muitos constrangimentos que tivemos por causa desse maldito jogo durante o resto da viagem!

Voltei ao Eliot um pouco antes do horário combinado e, quando cheguei ao saguão, me disseram que o Eduardo já estava no hotel e que o carro já estava vindo também. Minutos depois, ele apareceu todo sorridente, me mostrando um e-mail ao celular, com a maravilhosa surpresa de que Maria Luiza, filhinha da sua irmã Manuela, que estava sendo esperada pra depois da nossa volta, tinha nascido havia poucas horas e que estava tudo bem! Bem-vinda Maluzinha!!!!


Agradecemos os gentilíssimos atendentes do Eliot e pegamos nosso “possante”, um Chevrolet Cruze que recebemos da Avis por upgrade ao Ford Focus que havíamos originalmente alugado, mas que não teve disponibilidade. Mais um maravilhoso presente de casamento!

Digitamos a cidade de Woods Hole no GPS e lá fomos nós, rumo a Martha´s Vineyard!


A estrada era tão bem cuidada quanto o esperado, com faixas largas e rodeada de verde, praticamente do início ao fim.


Tentamos sintonizar em alguma estação que desse os últimos momentos do jogo ou, ao menos, o resultado final daquela tragédia na história futebolística do Brasil e chegamos, curiosamente, a uma rádio da colônia portuguesa da região, pois são muitos os imigrantes de Portugal, principalmente vindos dos Açores, em Boston, Providence, Cape Cod e a própria ilha de Martha´s Vineyard.

 (parágrafo de participação especial do Eduardo) Bastaram poucos minutos para o locutor português anunciar o placar final da partida: 7 a 1 para a Alemanha. Em suas exactas palavras “uma lástima para nossos irmãos brasileiros”. Lástima maior ainda foi o que se seguiu: em homenagem (meio lusitana) aos perdedores, o locutor pôs para tocar canção da safra mais brega do Roberto Carlos, cujo refrão, em coro, era repetido até não poder mais “veeeeeeerde amarelo...veeeeeeeerde amarelo....veeeeeeeeeerde amarelo”. Seguimos tentando escutar a estação patrícia, mas, infelizmente, seu repertório era dominado pelo pior da música brasileira – breganejo e axé music.  Nada de Amália ou Mariza. Só dava Teló e companhia.  Tivemos de mudar de estação.  No futebol como na música, o “orgulho de ser brasileiro” é atualmente coisa de português.

Foi uma viagem super tranquila e a estrada muito boa, sem solavancos, virando um sonífero irresistível durante boa parte do trajeto. Num momento, estava eu ouvindo a rádio portuguesa anunciando pacotes de férias “para os Açoiresh”, no outro, minha cabeça pendendo por sobre o cinto de segurança e eu quase babando. Um efeito impressionante!

Em determinado momento, consegui acordar de vez e começamos a ver as placas anunciando a proximidade de Woods Hole, até que o GPS indicou a entrada. Procuramos um dos estacionamentos de carros que deveriam existir naquela pequena cidade e, depois de alguns desencontros, achamos um enorme. Era lá que deveríamos deixar nosso possante e pegar um ônibus para o cais de onde saíam as barcas.

O estacionamento estava bem repleto de carros, mas pouquíssimas pessoas. Paramos um pouco afastado do que parecia ser o ponto do ônibus, pois precisávamos acomodar algumas sacolas que estavam no banco de trás no porta-malas e, devido ao nosso legado, ficamos com medo de que alguém visse nossas comprinhas desamparadas no carro por duas noites.

Quando acabamos, um ônibus com uma carinha meio vintage já estava entrando no estacionamento. Andamos até o ponto, acomodamos nossas malas no compartimento interno e entramos junto com alguns outros turistas que pareciam também querer aproveitar um pouco do verão na ilha.

Rapidinho chegamos ao cais, onde compramos as passagens de ida e volta. O tempo parecia que ia fechar de vez, mas só chegamos a pegar um chuvisco.




Uma vez dentro da moderna barca, pudemos aproveitar o wifi e falar com a família sobre os efeitos psicológicos do desastre do jogo e, principalmente, receber muitas fotos da linda Maluzinha em suas primeiras horas de vida.

Menos de uma hora depois, desembarcávamos no porto de Vineyard´s Haven. Nossa hospedagem ficava na Main Street e nós, relaxados que estávamos, achamos que fosse a rua principal indicada no mapa do porto e nos pusemos a andar, curtindo as casinhas de ripa de madeira que predominam na região.

Logo em seguida ao cais, havia algumas pessoas em volta de uma parede artificial de escalada (e uma ambulância ali parada só por causa disso!), mais algumas banquinhas vendendo comida, ao que nos pareceu algum tipo de feira popular do pessoal local. No entanto, a maior parte das casas estava apagada e vazia, de onde supomos serem na maioria, de pessoas que passam os fins de semana na ilha. Depois de alguns minutos andando a esmo, concluímos que a numeração não estava batendo e resolvemos retornar ao porto.

Lá, pedimos algumas informações e concluímos que não era pelo fato de Martha´s Vineyard ser uma ilha que o local seria pequeno. Deveria haver quase uma dezena de Main Streets por ali e aquela que deveríamos encontrar era a de Edgartown. Teríamos de pegar um táxi compartilhado ou ônibus e falamos com um motorista de van que estava saindo naquele momento. Quando dissemos nosso destino, ele informou que estava indo em outra direção, mas que pediria a alguém pra vir nos buscar. Esperamos cerca de 20 minutos, até que chegou um outro táxi dirigido por Susan, uma ex-comissária de bordo da Panam que, depois de aposentada, foi morar em Martha´s Vineyard. Ela era noiva de um sérvio, com quem deveria se casar em breve e morar na ilha.

Descobrimos tudo isso batendo papo no trajeto até o Ashley Inn, junto com a impressionante informação de que uma enorme colônia de brasileiros habitava na ilha. Segundo Susan, cerca de 4 mil patrícios moravam ali. Chegando ao Bed and Breakfast, o Eduardo checou a população total da ilha que, de nativos, girava em torno de 15 mil pessoas. Ou seja, quase um terço da população fixa de Martha´s Vineyard era composta de imigrantes brazucas! É bem verdade que, no verão, a ilha costumava abrigar até 100 mil pessoas, mas em termos de população local, é sem dúvida um número impressionante. Não foi à toa que recebemos de Susan nossas primeiras condolências pelo resultado catastrófico daquele dia. Ela devia conhecer muitas pessoas que estavam desoladas pelo resultado do jogo.

Chegamos 15 minutos depois no Ashley Inn, onde pagamos e nos despedimos da simpática Susan. Fred, o hostess do B&B estava lá pra nos receber.Depois dos segundos pêsames do dia pelo maldito jogo, explicou o funcionamento do local e, para nosso alento, indicou alguns restaurantes que ainda deveriam estar abertos no centrinho de Edgartown, mas não por muito tempo, pois já passava das 22h!

Corremos pra deixar nossas malas no quarto, uma verdadeira gracinha que, segundo folheto do Ashley Inn, era decorado com antiguidades, além das próprias camas de dossel e colchas vintage. Outro presente de casamento muito chique!



Corremos em direção aos restaurantes indicados e, depois de algumas negativas, conseguimos uma cozinha aberta no Atlantic, bem à beira-mar.

Um garçom argelino, com jeito de italiano, extremamente simpático, nos trouxe o cardápio e indicou alguns pratos. Quando vimos o nome do chef, Joseph Medeiros, supomos que fosse português ou mesmo brasileiro. Não deu outra! Na volta do garçom, depois de algumas expressões de condescendência pelo fato de saber que éramos brasileiros ( “dia difícil pra vocês, hein?”), confirmou que Joseph (muito provavelmente, Zé) era, sim, nosso conterrâneo.

Pedimos taças de vinho e lulas empanadas de entrada. De prato principal, o Eduardo foi de salmão e eu comi o segundo melhor peixe da minha vida (o melhor foi o cherne com banana do Chez Manu) e nem dei bola pros inúmeros gols da Alemanha passando na TV do restaurante.

(foto muito escura, mas é melhor do que nada)

Elogiamos muito os pratos divinos e nos despedimos, dando parabéns ao chef Zezinho, ops... Joseph! Voltamos felizes ao lindo Ashley Inn, que estava completamente aberto para que entrássemos. OK, a porta da frente estava fechada. Nós abrimos uma porta lateral (destrancada) que dava para o jardim e, então, entramos na casa.

Aproveitei pra registrar o orgulhoso English Tea Room onde seria servido o café, antes que tivesse gente nele estragando o visual, mais a linda sala de estar com lareira.




Subimos cautelosamente a escada que rangia suave sob o peso dos anos (o casarão datava de 1860), apesar de estar muitíssimo bem conservado e fomos pro nosso quarto de casa de boneca.


Diante de tantas coisas, não admira o blog só ser atualizado duas semanas depois da volta.

Amanhã, tem mais Martha´s Vineyard!

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