Acordamos já pensando que a noite daquela terça-feira seria
passada no nosso próximo destino, a ilha de Martha´s Vineyard. Assim, o dia começava
com a decisão sobre o horário em que deveríamos deixar Boston, de carro, a
caminho de Woods Hole, onde pegaríamos uma barca até a ilha.
O Eduardo já havia pesquisado de antemão na internet os
horários do transporte e viu que a última barca saía às 21h. Como Woods Hole estava
a cerca de 2 horas de Boston, a programação ficou em compras pela manhã, check
out no hotel até meio-dia, onde deixaríamos as malas até a hora da viagem e
almoço. Depois, enquanto o Eduardo assistiria ao primeiro tempo do jogo das
semifinais, Brasil x Alemanha – não
poderíamos supor, então, que fosse se tornar aquele tão famigerado evento – eu
bateria pernas pela cidade. Sabiamente, eu continuava me recusando a perder
tempo da viagem com jogos da Copa. Depois, pediríamos pra pegar o carro que já
estava na garagem do hotel desde Domingo e, por volta de 17h, seguiríamos rumo
a Woods Hole.
Andamos a Newbury Street até o fim, quando entramos na loja
Brooks Brothers, com a seção masculina em promoção de 60%, na maior parte das
peças. Ficamos nessa função de compras para o Eduardo, ele de provador e eu de
consultora, na maior parte da manhã e acabamos não indo a praticamente nenhuma
outra loja.
Fomos em direção ao Eliot pra deixar as sacolas das compras
do Eduardo, mas resolvemos parar pra almoçar, pois até então, não tínhamos nem
tomado café. Entramos num restaurante simpático, de esquina, chamado Met.
Depois, constatamos se tratar do restaurante de um hotel, mas que tinha uma
área externa grande, com muitas mesas já ocupadas. Achamos o bar mais
confortável, até porque fazia um dia bem quente e lá ficamos. Pedi de entrada
uma sopa de cebola, super saborosa, que o Eduardo acabou dividindo comigo. De
prato principal, ele pediu um fish and chips e eu um hambúrguer de peixe.
Enquanto esperávamos pelos pratos, reparamos num homem que
tomava uma cerveja tranquilo e satisfeito na mesa ao lado, enquanto lia algo em
seu celular. De repente, uma mulher que parecia ser sua esposa chegou e disse
não ter gostado do lugar, que preferia ficar do lado de fora, pois estava um
dia muito bonito. Ele respondeu sério, mas resignado, “O que quer que você
prefira, meu amor”, e completou com uma certa ironia, “Desculpe-me se este
lugar não está bom”. Enquanto a mulher se dirigia à área externa pra pegar a
mesa, o sujeito ficou resmungando baixinho, bufando, reunindo seus pertences, até
que se levantou e saiu. Quando fomos embora, vimos os dois sentados numa mesa
em que batia um pouco de sol e o sujeito com uma cara de mártir danada. Achamos
graça desses retratos que são feitos a partir de breves observações das pessoas,
pois ainda que seja a impressão mais errada do mundo, pra mim e pro Eduardo, aqueles
dois ficaram para sempre marcados na memória como o oprimido e a chata, no
restaurante Met da Newbury Street.
Voltamos ao hotel pra deixar as sacolas e nos separamos,
combinando de nos encontrarmos novamente no saguão às 17h, pra pegarmos o carro
e irmos embora. Como a manhã toda foi dedicada à consultoria do Eduardo, minha
ideia era dar uma olhadinha nas promoções femininas e ainda comprar um tênis de
corrida pra mim; tudo enquanto o Eduardo estivesse vendo o jogo.
Voltei pra Newbury St, pois, ainda bem próximo ao nosso
hotel, havia uma filial da tão famosa Forever 21, cuja abertura no Brasil
causou tanto estardalhaço. Nunca havia entrado nela e fiquei chocada com os 4
andares lotados de roupas... e gente. Constatei, mais uma vez, minha absoluta
dificuldade em fazer compras com muitas opções. Gastei um tempo absurdo naquela
loja, mais experimentando itens que acabei não levando do que qualquer outra
coisa, e depois fui em direção à Nike, que era na outra ponta da rua.
Enquanto caminhava, era possível ouvir alguns gritos de
torcidas nos bares à volta e fiquei com a inocente impressão de que já deveriam
ter saído uns dois gols. Quando cheguei à Nike e um rapaz me indicou onde eu
poderia ver os tênis que desejava, resolvi perguntar a ele se sabia o placar do
jogo Brasil x Alemanha, até então. Ele riu e falou, “Claro, 4 a 0!”. Não sei se
foi algo que eu entendi errado ou se foi apenas excesso de otimismo meu, mas
respondi “Nossa, como pode? Eu achei que o Brasil fosse perder feio!”. E ele
retrucou “Acho que você não entendeu. O Brasil está PERDENDO de 4 a 0...”, fez
pequena pausa e completou, “Quer dizer, de 5 a 0. A Alemanha acaba de fazer
outro gol!”. O sujeito gargalhou na minha cara e ainda emendou “Se você quiser,
no segundo andar, temos muitas camisas da seleção brasileira. Já devem estar em
promoção!” e, dito isso, ele e o vendedor ao lado caíram na risada. Ninguém
merece! Fiquei com vontade de responder “E a camisa da seleção americana? Você
chegou a ter à venda em algum momento? Quantas estrelas tem gravadas nela
mesmo?”, mas diante do sem número de contra-argumentos que o sujeito podia me
dar, me deixando ainda mais envergonhada, engoli aquele sapo enorme e fui
comprar meu tênis. E pensar que foi só o primeiro dos muitos constrangimentos
que tivemos por causa desse maldito jogo durante o resto da viagem!
Voltei ao Eliot um pouco antes do horário combinado e,
quando cheguei ao saguão, me disseram que o Eduardo já estava no hotel e que o
carro já estava vindo também. Minutos depois, ele apareceu todo sorridente, me
mostrando um e-mail ao celular, com a maravilhosa surpresa de que Maria Luiza,
filhinha da sua irmã Manuela, que estava sendo esperada pra depois da nossa
volta, tinha nascido havia poucas horas e que estava tudo bem! Bem-vinda
Maluzinha!!!!
Agradecemos os gentilíssimos atendentes do Eliot e pegamos
nosso “possante”, um Chevrolet Cruze que recebemos da Avis por upgrade ao Ford
Focus que havíamos originalmente alugado, mas que não teve disponibilidade. Mais
um maravilhoso presente de casamento!
Digitamos a cidade de Woods Hole no GPS e lá fomos nós, rumo
a Martha´s Vineyard!
A estrada era tão bem cuidada quanto o esperado, com faixas
largas e rodeada de verde, praticamente do início ao fim.
Tentamos sintonizar em alguma estação que desse os últimos
momentos do jogo ou, ao menos, o resultado final daquela tragédia na história
futebolística do Brasil e chegamos, curiosamente, a uma rádio da colônia portuguesa
da região, pois são muitos os imigrantes de Portugal, principalmente vindos dos
Açores, em Boston, Providence, Cape Cod e a própria ilha de Martha´s Vineyard.
(parágrafo de
participação especial do Eduardo) Bastaram poucos minutos para o locutor
português anunciar o placar final da partida: 7 a 1 para a Alemanha. Em suas exactas palavras “uma lástima para nossos
irmãos brasileiros”. Lástima maior ainda foi o que se seguiu: em homenagem (meio
lusitana) aos perdedores, o locutor pôs para tocar canção da safra mais brega
do Roberto Carlos, cujo refrão, em coro, era repetido até não poder mais “veeeeeeerde
amarelo...veeeeeeeerde amarelo....veeeeeeeeeerde amarelo”. Seguimos tentando
escutar a estação patrícia, mas, infelizmente, seu repertório era dominado pelo
pior da música brasileira – breganejo e axé music. Nada de Amália ou Mariza. Só dava Teló e
companhia. Tivemos de mudar de estação. No futebol como na música, o “orgulho de ser
brasileiro” é atualmente coisa de português.
Foi uma viagem super tranquila e a estrada muito boa, sem
solavancos, virando um sonífero irresistível durante boa parte do trajeto. Num
momento, estava eu ouvindo a rádio portuguesa anunciando pacotes de férias “para os Açoiresh”, no outro, minha cabeça
pendendo por sobre o cinto de segurança e eu quase babando. Um efeito
impressionante!
Em determinado momento, consegui acordar de vez e começamos
a ver as placas anunciando a proximidade de Woods Hole, até que o GPS indicou a
entrada. Procuramos um dos estacionamentos de carros que deveriam existir
naquela pequena cidade e, depois de alguns desencontros, achamos um enorme. Era
lá que deveríamos deixar nosso possante
e pegar um ônibus para o cais de onde saíam as barcas.
O estacionamento estava bem repleto de carros, mas
pouquíssimas pessoas. Paramos um pouco afastado do que parecia ser o ponto do
ônibus, pois precisávamos acomodar algumas sacolas que estavam no banco de trás
no porta-malas e, devido ao nosso legado, ficamos com medo de que alguém visse
nossas comprinhas desamparadas no carro por duas noites.
Quando acabamos, um ônibus com uma carinha meio vintage já
estava entrando no estacionamento. Andamos até o ponto, acomodamos nossas malas
no compartimento interno e entramos junto com alguns outros turistas que
pareciam também querer aproveitar um pouco do verão na ilha.
Rapidinho chegamos ao cais, onde compramos as passagens de
ida e volta. O tempo parecia que ia fechar de vez, mas só chegamos a pegar um
chuvisco.
Uma vez dentro da moderna barca, pudemos aproveitar o wifi e
falar com a família sobre os efeitos psicológicos do desastre do jogo e,
principalmente, receber muitas fotos da linda Maluzinha em suas primeiras horas
de vida.
Menos de uma hora depois, desembarcávamos no porto de
Vineyard´s Haven. Nossa hospedagem ficava na Main Street e nós, relaxados que
estávamos, achamos que fosse a rua principal indicada no mapa do porto e nos
pusemos a andar, curtindo as casinhas de ripa de madeira que predominam na
região.
Logo em seguida ao cais, havia algumas pessoas em volta de
uma parede artificial de escalada (e uma ambulância ali parada só por causa
disso!), mais algumas banquinhas vendendo comida, ao que nos pareceu algum tipo
de feira popular do pessoal local. No entanto, a maior parte das casas estava
apagada e vazia, de onde supomos serem na maioria, de pessoas que passam os
fins de semana na ilha. Depois de alguns minutos andando a esmo, concluímos que
a numeração não estava batendo e resolvemos retornar ao porto.
Lá, pedimos algumas informações e concluímos que não era pelo
fato de Martha´s Vineyard ser uma ilha que o local seria pequeno. Deveria haver
quase uma dezena de Main Streets por ali e aquela que deveríamos encontrar era
a de Edgartown. Teríamos de pegar um táxi compartilhado ou ônibus e falamos com
um motorista de van que estava saindo naquele momento. Quando dissemos nosso
destino, ele informou que estava indo em outra direção, mas que pediria a
alguém pra vir nos buscar. Esperamos cerca de 20 minutos, até que chegou um
outro táxi dirigido por Susan, uma ex-comissária de bordo da Panam que, depois
de aposentada, foi morar em Martha´s Vineyard. Ela era noiva de um sérvio, com
quem deveria se casar em breve e morar na ilha.
Descobrimos tudo isso batendo papo no trajeto até o Ashley
Inn, junto com a impressionante informação de que uma enorme colônia de
brasileiros habitava na ilha. Segundo Susan, cerca de 4 mil patrícios moravam
ali. Chegando ao Bed and Breakfast, o Eduardo checou a população total da ilha
que, de nativos, girava em torno de 15 mil pessoas. Ou seja, quase um terço da
população fixa de Martha´s Vineyard era composta de imigrantes brazucas! É bem
verdade que, no verão, a ilha costumava abrigar até 100 mil pessoas, mas em
termos de população local, é sem dúvida um número impressionante. Não foi à toa
que recebemos de Susan nossas primeiras condolências pelo resultado
catastrófico daquele dia. Ela devia conhecer muitas pessoas que estavam
desoladas pelo resultado do jogo.
Chegamos 15 minutos depois no Ashley Inn, onde pagamos e nos
despedimos da simpática Susan. Fred, o hostess do B&B estava lá pra nos
receber.Depois dos segundos pêsames do dia pelo maldito jogo, explicou o
funcionamento do local e, para nosso alento, indicou alguns restaurantes que
ainda deveriam estar abertos no centrinho de Edgartown, mas não por muito tempo,
pois já passava das 22h!
Corremos pra deixar nossas malas no quarto, uma verdadeira
gracinha que, segundo folheto do Ashley Inn, era decorado com antiguidades,
além das próprias camas de dossel e colchas vintage. Outro presente de
casamento muito chique!
Corremos em direção aos restaurantes indicados e, depois de
algumas negativas, conseguimos uma cozinha aberta no Atlantic, bem à beira-mar.
Um garçom argelino, com jeito de italiano, extremamente
simpático, nos trouxe o cardápio e indicou alguns pratos. Quando vimos o nome
do chef, Joseph Medeiros, supomos que fosse português ou mesmo brasileiro. Não
deu outra! Na volta do garçom, depois de algumas expressões de condescendência
pelo fato de saber que éramos brasileiros ( “dia difícil pra vocês, hein?”),
confirmou que Joseph (muito provavelmente, Zé) era, sim, nosso conterrâneo.
Pedimos taças de vinho e lulas empanadas de entrada. De
prato principal, o Eduardo foi de salmão e eu comi o segundo melhor peixe da
minha vida (o melhor foi o cherne com banana do Chez Manu) e nem dei bola pros
inúmeros gols da Alemanha passando na TV do restaurante.
(foto muito escura, mas é melhor do que nada)
Elogiamos muito os pratos divinos e nos despedimos, dando
parabéns ao chef Zezinho, ops... Joseph! Voltamos felizes ao lindo Ashley Inn,
que estava completamente aberto para que entrássemos. OK, a porta da frente
estava fechada. Nós abrimos uma porta lateral (destrancada) que dava para o
jardim e, então, entramos na casa.
Aproveitei pra registrar o orgulhoso English Tea Room onde
seria servido o café, antes que tivesse gente nele estragando o visual, mais a
linda sala de estar com lareira.
Subimos cautelosamente a escada que rangia suave sob o peso
dos anos (o casarão datava de 1860), apesar de estar muitíssimo bem conservado
e fomos pro nosso quarto de casa de boneca.
Diante de tantas coisas, não admira o blog só ser atualizado
duas semanas depois da volta.
Amanhã, tem mais Martha´s Vineyard!

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