sexta-feira, 27 de junho de 2014

27 de junho - Nova York: A Dama Verde, Ellis Island e Downtown.

O dia já começou com novo festival calórico ao american style: panquecas de blueberry com maple syrup para o café da manhã no Chowder´s Bar, que fica no nosso hotel.

Fomos servidos por um garçon indiano muito atencioso. Só não curtimos muito o preço. Panquecas ótimas, mas provavelmente as mais caras de NY!


A principal atração do dia era a Estátua da Liberdade e Ellis Island, com o museu de imigração, mas antes, decidimos comprar logo os ingressos para o show daquela noite que havíamos nos programado para assistir. Um concerto de Jazz de Azar Lawrence, no Lincoln Center; mais um dos nossos generosos presentes de casamento. Fomos até o local indicado no hotel, que ficava no 6o andar de um prédio em Columbus Circle, apenas a alguns quarteirões de onde estávamos.

O local chamava-se Coca Cola Dizzy Club, ocupava um andar inteiro e era bem bacana, com janelas enormes, várias salas amplas, algumas com pianos e supostos artistas com cara de quem sabe tudo de Jazz, nas suas expressões blasé ou falando marrentos ao celular. Pedimos informações e chegamos a um balcão onde pareciam ser vendidos os ingressos. Não havia ninguém, mas ouvíamos a voz de uma mulher, na sala ao lado, dando informações por telefone sobre o show daquela noite.

Depois de alguns minutos, a própria apareceu. Chamava-se Paulette e parecia um personagem daqueles que o Eddie Murphy representa, cheio de maquiagem e computação gráfica. Ou seja, era tão caricata no gestual, que não parecia real! Uma figura! Explicou-nos que não havia mais ingressos para aquela noite, mas de uma maneira tão, tão animada, que quase demos gritinhos de alegria ao saber disso. Acrescentou que podíamos chegar pouco antes de 23h e assistir ao Late Show, quando se apresentavam outras bandas, mas igualmente divertido e muito mais barato. Paulette também disse, entre palminhas de animação e exclamações de "It´s gonna be sooooo fun!" que haveria outro show de Azar Lawrence no Domingo, para o qual poderíamos fazer reservas. Seria às 19:30 e poderíamos aproveitar para ver o cair da noite pelas enormes janelas.

Fizemos as reservas para o Domingo e quando o Eduardo disse o nome, ela fez a indefectível pergunta da nacionalidade. Quando dissemos ser brasileiros, novos pulinhos de alegria vieram acompanhados de "I kneeeeeew it!!!". Levou-nos saltitante para a sala onde seria o show e falou orgulhosa que quando as pessoas pediam pra sentar perto da banda, ela respondia "não é necessário, porque a banda vai até você"! Quando as pessoas pediam pra sentar perto da janela, ela respondia "não é necessário, pois as janelas vão até você". Saí de lá extremamente animada com o show e com a sensação de que Paulette era a pessoa mais feliz que eu havia visto na vida. E olha que eu estava de férias e passando a Lua-de-Mel em Nova York. Não sei o quanto ela ganha, mas seria justo que fosse um excelente salário.

Pegamos o metrô pra Downtown, em direção ao transporte pras ilhas. Nem o Eduardo as havia visitado, nem eu em 1995, quando fiz um curso em NY por um mês e meio e grudei nas brasileiras que moravam no mesmo pensionato em que eu havia ficado. Ninguém queria fazer programa de turista comigo naquela época e eu, que era ainda muito bobinha, não tive ânimo de ir sozinha. De certa forma, foi bom, pois acredito que não tivesse maturidade pra aproveitar o que aproveitei desta vez. Ainda mais com a companhia do meu cultíssimo marido (quem conhece, sabe que não é só discurso de esposa apaixonada).

Seguimos de metrô até downtown e saltamos na estação final, bem próxima ao Battery Park, que já foi uma instalação da Marinha americana e se transformou num parque muito simpático. Como já tínhamos comprado o New York City Pass no Museu de História Natural, achamos que era só entrar direto na fila. No entanto, quando chegamos na entrada, descobrimos ser necessário trocar nossos passes pelos ingressos de fato em Castle Clinton. Nada grave, pois as filas são rápidas e divertidas, com pessoas de todos os cantos do mundo e artistas que paparicam turistas, perguntando suas nacionalidades e fazendo músicas engraçadinhas com elas. Por mais que tenhamos tentado passar incólumes, não houve jeito. O cantor afro-american abriu aquele enorme sorriso com dentição de piano e pimba! No meio daquele mundaréu de gente, escolheu fixar contato visual provavelmente com o que parecia mais tímido. Perguntou ao Eduardo de onde ele era, que respondeu envergonhadíssimo com a condição de centro das atenções, "from Brazil". O sujeito desfiou a muisiquinha com todos os estados brasileiros que conhecia: "Lálálálálálá... Ba'rr'ia, Santa Catarrrrena, Menas Dgeraes, Amadzonia... lálálálálá...". Pra que ele trocasse de vítima, o Eduardo se apressou em lhe dar um dólar.




Depois de trocarmos os ingressos, entramos na hora certinha, pois pouco depois de passarmos da entrada, o número de passageiros para aquele barco foi esgotado. Em poucos minutos, o skyline de Manhattan já se destacava no horizonte...


Foi um sem número de fotos da Dama Verde, mas mesmo com esse cocoruto ruivo no meio do caminho, vale o registro da estátua com o skyline de NY ao fundo.


 Rapidinho desembarcamos em Liberty Island. Uma ilha muito arborizada e simpática. O dia estava espetacular e havia muitas famílias curtindo aquela Sexta-Feira de sol.


Depois de tirarmos uma dessas fotos de Lady Liberty, um senhor virou-se pra nós e disse "Vive la France!". Até agora não sabemos o motivo, mas temos algumas especulações. Uma é que ele é absolutamente péssimo na identificação de idiomas, confundindo nosso Português com Francês, outra é que estávamos relativamente perto de um cartaz que explicava a origem da estátua e o fato de ter sido um presente da França pela comemoração de 100 anos de NY. A terceira e última hipótese é que eu estava com um vestido da Elle Et Lui, que tem aquela bandeirinha da França bordada como logo. Nunca saberemos o real motivo, mas fato é que foi divertido!



Não subimos, pois achamos que perderíamos muito tempo e imaginamos que as melhores fotos seriam da própria Dama, principalmente com seu traje super trabalhado num inacreditável quebra-cabeças de placas de cobre.


Pegamos nova barca e fomos para Ellis Island, cujo destino era o Museu da Imigração e seus famosíssimos registros. Esta é a fachada do museu...


Vimos muitos registros interessantes, como este cartaz que avisava dos sequestros de afro americanos livres, como aconteceu com o personagem principal do filme Doze Anos de Escravidão.


Assistimos a um documentário emocionante que foi antecedido por uma pequena palestra de uma das funcionárias de Ellis Island. Ela contou um pouco da história do local, começando com algumas perguntas, que tinham por objetivo provocar a interação com o público.

A senhora, que tinha um carisma incrível, questionou, por exemplo, qual teria sido o país com maior número de cidadãos passando pelo Centro de Imigração da ilha. Eu, como a maior parte das pessoas ali presentes, respondi Irlanda. Ela esclareceu que a onda de imigração irlandesa aconteceu na época da grande fome daquele país, por volta de 1847, antes da ativação de Ellis Island, em 1892. Com isso, as nações top 3 que passaram por ali, até seu fechamento em 1954, foram, nesta ordem, Itália, Rússia e Polônia.

O documentário que se seguiu se chamava "Island of Hope. Island of Tears.", com registros emocionantes do momento em que os imigrantes embarcavam, a terrível viagem, a chegada em Ellis Island, o registro (seguido de aprovação ou deportação, em alguns casos específicos) e o começo da nova vida. Era narrado por um ator que amo, Gene Hackman, mas também entremeado por depoimentos reais de diversos imigrantes que viveram aquela época.

Dentre os relatos mais comoventes, havia o da senhora que disse ter desejado que o navio afundasse em alguns momentos, tamanho era o sofrimento da viagem. Além do desconforto que o balanço do mar provocava, havia a superlotação e o cheiro de comida podre, pois era fornecido apenas um panelão de sopa no embarque e este deveria durar durante todo o trajeto. Um senhor relatava que ele e a família chegaram com nada mais do que a roupa que vestiam. Outra senhora, com voz embargada, comentava da separação da família no momento do registro, quando homens e mulheres eram obrigados a seguir para pontos diferentes. Ela disse "nunca me senti tão sozinha". Outro comentário curioso foi o de um senhor que informou seu nome e perguntaram como se soletrava. Ele disse não saber. O oficial escreveu de uma determinada maneira e perguntou a ele se estava bom, ao que ele respondeu "tanto faz".

Foram inúmeros depoimentos emocionantes. Ainda farei uma busca pra saber se o documentário está no YouTube, mas se ainda não tiver sido publicado, será em breve, graças a um imbecil que filmou toda a projeção, incomodando todos a sua volta, inclusive eu, gerando um desconfortável foco de luz no escuro.

Foi muito bom termos assistido ao documentário antes de subirmos ao segundo andar, onde pudemos conferir o local do Centro de Registro de Imigrantes como era durante o funcionamento do edifício...


E como é atualmente...

As salas à volta desse salão, no segundo andar, traziam os melhores registros fotográficos, com um acervo impagável dos mais diversos tipos de culturas. As imagens ocupavam paredes inteiras e foi difícil escolher aquelas que deveriam subir para o blog!

Este menino, um imigrante italiano, que apesar de tão jovem, já tinha as feições de um adulto...


Um dos navios de imigração, com seu convés absolutamente lotado. Vale a pena dar zoom e perceber as expressões das pessoas.

A estrutura dos navios...


Vários cartazes anunciando os navios de transporte. No caso do registro abaixo, os italianos...


Órfãos de imigrantes judeus. No documentário, explicou-se que muita gente morria durante a própria viagem, dado baixo nível de nutrição e as condições insalubres a que eram expostos.


Algumas dessas crianças órfãs ainda conseguiam manter o jeito infantil e o sorriso fácil, enquanto que outras pareciam carregar o peso do mundo nas costas...


A luta por melhores condições e salários.



Apesar de extremamente interessante, o museu é bastante melancólico. Fica-se imaginando a riqueza daquelas vidas, tantas experiências, histórias pra contar, mas hoje, apesar da memória preservada por meio do museu, não há um retratado ali que já não tenha falecido.

Há também um centro de pesquisa de antepassados imigrantes, onde fizemos busca pelos nossos parentes italianos. Os meus "di Mauro", provenientes de Marina di Camerota e os Gaspari de Portocannone da família do Eduardo. Bingo!


Não só o museu era o máximo, mas, com o dia espetacularmente ensolarado e com céu limpo, a ilha em si foi uma delícia de passear. O cenário era esse lindo skyline visto de Manhattan.


Por volta de 16h, retornamos a Manhattan. Chegando mais perto, é impossível não pensar que, sem as torres gêmeas, parece faltar o nariz da cidade...


Desembarcamos outra vez em Battery Park, que estava bem mais cheio, com pessoas já saindo de seus trabalhos e aqueles que moram fora de Manhattan se encaminhando às barcas.

Andamos em direção a Wall Street, onde vimos o touro feio, mas concorrido do Financial District.


Olhar pra cima é quase sempre um deleite e mesmo os arranha-céus de que não gosto nem um pouco ganham contornos interessantes, quando contrastados aos diversos estilos arquitetônicos de NY.  Neste caso, o espigão quase ficou transparente, refletindo perfeitamente o lindo céu azul.


Sem dúvida, a cidade rende várias fotos interessantes, como essa que mostra o céu de Wall Street até Trinity Church...


 Demos uma paradinha para algumas gordices com café e capuccino no Financier Café.


  E fomos ao comovente Memorial 9/11...






O plano era andarmos até Greenwich Village, mas a hora já avançava e os pés já doíam, de maneira que pegamos um metrô até bem perto do Washington Square.

Como de costume, havia várias pessoas jogando xadrez. Um senhorzinho simpático nos chamou pra jogar com ele e, diante de nossa gentil recusa, resmungou sorrindo que ia acabar voltando pra casa sem ter jogado uma partida.



O plano daquele dia também incluía uma visita afetiva. Eu queria muito ver novamente o pensionato do Exército da Salvação, onde havia me hospedado por cerca de 50 dias em 1995. Ficava na rua 13 e foi bem emocionante entrar outra vez pelo saguão do Markle Evangeline Residence.


Na saída, uma simpática senhora que havia me visto entrar disse que eu tinha toda a cara de quem tinha morado ali. Respondi que ela estava certa e ela me perguntou quanto tempo fazia desde essa estadia. Disse que havia sido há quase 20 anos e ela comentou que já tinha testemunhado aquela expressão várias vezes, inclusive, de algumas ex-hóspedes já bem velhinhas.



Diante da minha empolgação, o Eduardo sugeriu que jantássemos no restaurante italiano bem em frente à Markle, embora nossos planos fossem buscar um outro, mais a oeste de Manhattan. Mais um maravilhoso presente de casamento em forma de jantar!

Excelente ideia do meu marido, pois lá, no Gradisca Ristorante, pude saborear minhas amadas Fiori di Zucchini!!!

Ah, claro e uma taça de Pinot Grigio da casa...


Na verdade, duas taças, que me fizeram achar que estava fazendo fotos conceituais. Só que não...


Voltamos de metrô e fomos dormir exaustos e felizes.

Amanhã tem mais!

Nenhum comentário:

Postar um comentário