Planejamos começar nosso único dia inteiro em Washington
pelo museu que escolhemos dentre os muitos sensacionais que havia na cidade, a
National Gallery.
Às 13h, deveríamos estar no lobby do hotel, que foi o ponto
de encontro combinado com o Marat, para o almoço. Depois disso, a ideia era
fazermos um city tour no pouco tempo que teríamos na cidade.
Antes de sairmos, decidimos falar com o concierge do hotel
pra conseguir informações sobre o circuito mais apropriado dentro da nossa
disponibilidade e, se possível, comprar os passes. Quando chegamos no lobby, havia
uma família filipina já conversando com o funcionário, que parecia estar no fim
da explicação. No entanto, mais de 15 minutos se passaram até que ele pudesse
finalmente nos atender. Não sei se por insegurança ou carência, um dos sujeitos
não parava de fazer as mesmas perguntas.
Decidimos pelos percursos 4 e 5, pois só teríamos aquela
tarde até as 18h e a manhã do dia seguinte pra conhecermos, ao menos, os
principais monumentos.
Mesmo às 10h30 da manhã, o sol já castigava de calor, mas
resolvemos ir andando assim mesmo até o museu, pra tentarmos conhecer um pouco
melhor Washington.
O tom da cidade, naquela região, nos pareceu sempre muito
próximo, com os prédios públicos indo de diversos tons areia até eventuais
edifícios espelhados. Variava entre o bonito, imponente e kitch, com templos e
colunas de inspiração claramente neoclássica. Em alguns momentos, chegamos a
achar um pouco monótono. Em todo caso, a cidade possui um grande mérito
arquitetônico que é a manutenção de um gabarito baixo. Em momento algum vimos qualquer
espigão antipático cortando o céu e desarmonizando a vista.
Entramos na National Gallery, cuja entrada é franca e, como
não tínhamos ainda tomado café, cruzamos o museu e fomos para o subsolo, onde
nos indicaram haver um centro de alimentação.
No percurso, até lá, foi difícil já não parar pra apreciar
as belezas do acervo, que vimos contar com uma exposição especial de um de meus
pintores preferidos, Degas, e a americana Mary Cassatt, cujo encontro com esse
mestre impressionista declarou ter mudado sua vida.
A lanchonete gigantesca estava quase vazia e ficava ao lado
de uma lojinha de souvenires não muito menor. O Eduardo escolheu uma torta
trufada de chocolate e eu um sorvete de caramelo com flor de sal. Enquanto eu decidia,
reparei que a atendente preparava uma bebida linda para outro cliente, com café
e um leite cremoso (ou creme leitoso) que se misturou fabulosamente na
quantidade colossal de gelo que havia no copo. Fiquei hipnotizada e perguntei
discretamente o que era. Ela respondeu que tinha servido um iced latte. Eu, que
não sou de café, quanto mais café gelado, resolvi experimentar. Adorei! Mas a
quantidade era tanta que dividi com o Eduardo, ainda tendo de me esforçar pra
terminar minha metade.
Como estávamos mais próximos das obras dos pintores a partir
do fim do século XIX, que sempre acabamos deixando para o fim e, por isso,
terminam sempre sendo os que vemos com mais pressa, resolvemos inverter aquela
ordem. Começamos por uma galeria que contava com lindos Van Gogh, Cezánne e Matisse.
Logo depois, partimos para a exposição. Fiquei ainda mais fascinada
do que já era por Degas, que considero o melhor dos impressionistas. Amo o
realismo elegante com que ele era capaz de retratar sutis emoções de seus (na
maioria, suas) modelos. Não conhecia o trabalho de Mary Cassatt e a comparação
de seus quadros com de seu grande inspirador tornava ainda mais evidentes as
diferenças entre uma boa artista e um gênio da pintura.
Alguns quadros dela realmente eram espetaculares, mas como
bem definiu o Eduardo, entre outros detalhes, suas figuras tinham sempre o
olhar um tanto posado, artificial e, por isso, menos envolvente; como diria o
poeta, não descortinavam aquela angústia de haver alma (depois do ponto e
vírgula, foi uma óbvia inserção do próprio Eduardo).
Depois, corremos pra ver um dos poucos quadros de Leonardo
da Vinci, em exposição numa sala mais afastada de onde estávamos. Trata-se da
única do mestre em exibição nos Estados Unidos. É absolutamente sensacional e é
de uma delicadeza tão extrema que fica difícil lembrar que se trata de uma
pintura.
Nesse momento, já eram 12h45 e precisávamos correr para o
hotel. Diante do bafo quente inacreditável quando saímos do ar condicionado do
museu, decidimos pegar um táxi. Foi um pouco difícil consegui-lo, mas uma vez
dentro do carro, chegamos em 5 minutos.
Quando entramos no lobby, Marat já estava na recepção,
provavelmente para checar se estávamos no quarto. Quando viu o Eduardo,
abraçou-o calorosamente e foi a primeira vez que testemunhei meu marido abraçar
alguém sem ter de se abaixar nem um milímetro.
Marat nos levou para conhecer um pouco mais de Downtown, bem
como o Banco Mundial, onde já trabalhou e Emiko atualmente trabalha. Muito
gentilmente, ele já havia solicitado autorizações para a nossa visita, para a
qual foi necessária inspeção de segurança. Entrando no prédio, tomamos um susto com sua
grandiosidade, que não é possível de supor, vendo-se pelo lado de fora.
No hall principal, há exposições de fotos, um jardim
interno, diversos cafés e restaurantes para os funcionários. Marat nos levou
pra almoçar em um Buffet com culinária contemporânea, que tinha um pouco de
tudo. Aproveitei pra comer uma saladinha, pois já tinha um tempo que não dava
um alô para algumas folhinhas verdes.
Eduardo contou que tínhamos nos casado há uma semana e Marat
ficou claramente feliz por nós, admirando-se e repetindo o fato diversas vezes
depois. Contou-nos sobre Emiko, sua mulher, com quem se casou pouco depois de
conhecer o Eduardo e seus dois filhos, Maya e Max, que teríamos a oportunidade
de conhecer mais tarde.
Depois do almoço, Marat fez uso de seu poderoso crachá de
marido de funcionária e passeamos pelos corredores do Banco Mundial. A maior
parte das divisórias era de vidro e foi muito engraçado ver aqueles cenários de
filme americano, com salas em que dezenas de pessoas se reúnem em volta de uma
mesa absolutamente gigantesca.
Em determinado momento, estávamos no hall do elevador de um
determinado andar e uma dessas salas ficava bem a nossa frente. Como apenas
duas lâminas de vidro nos separavam do grupo, era possível ver uma enorme
apresentação sendo projetada, com o que parecia ser uma espécie de business
plan de algum projeto. Marat fez graça lendo o texto do slide e comentando que
aquilo tudo devia ser muito chato. Um dos participantes da reunião parece não
ter gostado de nossa curiosidade e esticou-se na cadeira, com uma expressão não
muito amigável, pra verificar quem eram aqueles bisbilhoteiros andando nos
corredores do Banco Mundial. Felizmente o elevador chegou e entramos rapidinho.
Depois, fomos até o prédio do escritório de advocacia em que
Marat trabalha. Um espaço muito agradável, com bastante luz do sol e salas
amplas. Conhecemos um colega seu que representa empresas brasileiras em
Washington e, por isso, falava Português. Trocou algumas palavras conosco,
obviamente sobre a Copa do Mundo e depois seguimos com Marat para ver um espaço
de convivência que havia no terraço do prédio.
Já havíamos tomado demais o tempo de Marat, por isso,
resolvemos deixá-lo até mais tarde, quando jantaríamos em sua casa.
Andamos até uma das paradas do nosso ônibus, onde algumas
pessoas também esperavam. Fazia um calor infernal e estava mais quente ainda
quando entramos no ônibus. Tivemos de decidir entre uma insolação no andar de
cima ou uma desidratação no andar de baixo e decidimos ficar na parte de baixo,
junto com alguns pesos pesados tipicamente americanos, que pareciam fazer parte
da ambientação do city tour.
Passamos pela Union Station e soubemos que havia uma estátua
do Colombo, numa área que não havíamos visto e também pelo Capitólio, quando o
guia explicou haver no seu topo a estátua da liberdade. Segundo ele, nenhum
outro prédio deveria estar acima dessa estátua, uma vez que a liberdade deve sempre
estar acima de tudo. Fizemos a volta e vimos o edifício por diversos ângulos
diferentes.
Vimos o monumento de Washington, que pode ser conferido por
diversos pontos da cidade...
... e também os mais diversos prédios administrativos e o memorial de Lincoln. Nesse ponto, acabamos saltando
pra conferir de perto a gigantesca escultura do mais querido presidente
americano, sentado de frente para a Reflecting Pool.
O memorial tem a forma de
um templo grego, no qual a gigantesca estátua de Lincoln sentado ocupa o lugar reservado
à divindade. Uma das paredes internas é ocupada pela transcrição do Gettysburg
Address, o mais célebre e comovente discurso de Lincoln (este parágrafo sério e culto é obra do Eduardo).
Lembrei muito da cena
do Forrest Gump em que a Robin Wright Penn reconhece o personagem do Tom Hanks fazendo um
discurso e, no meio de uma multidão de hippies que assistia, sai correndo pelo meio das piscinas do monumento, gritando “Forrest, Forrest!". (enquanto que esse parágrafo de bobagem pop é meu)
Vimos também o monumento da guerra da Coréia, que nos
pareceu de um certo mau gosto, com estátuas prateadas de soldados em campo.
Pelo guia do city tour, soubemos que cada um olhava para uma direção
determinada, representando todo o campo de guerra sendo coberto. O guia também
informou que cada uma das esculturas tinha as feições de um soldado real, o que
também achamos um pouco mórbido.
Depois de mais alguns prédios e monumentos, resolvemos
saltar num ponto próximo ao hotel, ainda antes do fim do loop, pois o tempo
apertava para nosso encontro com Marat, que viria nos buscar às 18:30 e, diante
da sauna que fizemos nas últimas horas, ainda tínhamos de tomar um bom banho.
Passamos numa lojinha de bebidas em frente ao Willard e
compramos o melhor vinho ali disponível pra presentear nossos generosos amigos
e fomos correndo nos arrumar.
Às 18:30, já no saguão do hotel, percebemos uma moça com
traços orientais procurando alguém e supomos que fosse Emiko. Não deu outra,
pois ela logo veio perguntar se éramos Eduardo e Ana Paula.
Marat estava no carro com Maya, Max e uma amiguinha de Maya,
chamada Sophia. Foi um trajeto divertido até Arlington, o lindo subúrbio em
Virgínia, estado vizinho ao Distrito Federal americano, onde todos eles
moravam. Era bem próximo ao centro de Washington, mas pegamos bastante trânsito
e acabamos demorando um pouco.
As crianças eram fofas demais! Maya acabou dormindo durante
o trajeto, mas a falante Sophia não parava de fazer perguntas e contar a seu
respeito, como, por exemplo, sobre sua mãe, que é equatoriana e o fato de ela
falar espanhol. Max ameaçou algumas reclamações de fome e, como eu era quem
estava ao lado dele, fui incumbida da deliciosa tarefa de dar-lhe alguns
biscoitinhos. A distração durou um pouco até a hora em que ele preferiu o colo
de Emiko e voltou a distribuir sorrisos.
Ao chegarmos, fomos recebidos pela mãe de Marat, Vera, que
estava visitando de Moscou e conversava com ele e Emiko em russo. Pra mim, foi
especialmente interessante, pois nunca havia presenciado tantos diálogos no
idioma.
A casa de Marat e Emiko era linda, bem ao estilo subúrbio
americano, super ampla, cercada de verde e sem qualquer muro delimitador dos
terrenos, característica que deixa o Eduardo especialmente fascinado. (Comentário
do Eduardo: uma sociedade pautada na confiança e não na suspeita).
As crianças eram uns doces e educadíssimas! Pareciam os
filhos da família Von Trapp! Enquanto Max se divertia sozinho com seus brinquedinhos,
fomos conhecer melhor o lugar por dentro, sempre sendo seguidos pela sorridente
Maya, que parecia adoravelmente orgulhosa da casa em que morava.
O jantar preparado por Emiko estava uma delícia! Brindamos com
champanhe ao reencontro, ao casamento e trocamos muitas histórias. Vera nos
deixou admirados quando nos falou sobre sua participação nas expedições num
navio científico da antiga União Soviética, em 1968, que parou em Recife e no Rio.
Também foi especialmente divertido contar o calvário que vivemos pra conseguir
a autorização para o casamento civil, quando passamos sete horas num plantão
judiciário, varando a madrugada de uma segunda-feira. Todos os relatos, nossos e os de Vera, eram simultaneamente
traduzidos por Marat e acompanhado das divertidas risadas de sua mãe.
Depois do jantar, fomos nos sentar na varanda interna da
casa, onde era possível ver mais um espetáculo de vaga-lumes e sentir o clima
de um pacato e tranquilo bairro residencial americano.
Uma chuva começou a ameaçar e vimos raios espetaculares no
céu aberto, sem qualquer prédio alto atrapalhando a vista. Como a hora já
avançava, achamos que já devíamos ir embora, pois nossos amigos não estavam de
férias como nós e trabalhavam no dia seguinte. Queríamos chamar um táxi, mas
Marat, na gentileza com que nos cercou durante todo o tempo, fez questão de nos
levar ao hotel.
Despedimo-nos de Vera e de Emiko, que já estava colocando as
crianças pra dormir, agradecendo muito e desejando que pudessem nos visitar no
Brasil assim que possível.
Seguimos de volta a Washington com Marat, que aproveitou pra
passar por Georgetown durante o trajeto, pra que já sentíssemos o clima do
lugar que desejávamos conhecer no próximo tour.
Chegamos em menos de 15 minutos e nos despedimos já
combinando de nos encontrar no lobby do hotel, às 10h30 do dia seguinte.
Mais agradável ainda do que conhecer as histórias e
monumentos de uma cidade é manter os laços de amizade com as pessoas queridas
que estão nelas, superando tempo e distâncias. Esse, certamente, foi o ponto
alto de Washington!


Curtindo muito e já marcando na agenda uma visita breve a Washington! Adorei as dicas!
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