segunda-feira, 7 de julho de 2014

2 de julho: dia em Washington

Planejamos começar nosso único dia inteiro em Washington pelo museu que escolhemos dentre os muitos sensacionais que havia na cidade, a National Gallery.

Às 13h, deveríamos estar no lobby do hotel, que foi o ponto de encontro combinado com o Marat, para o almoço. Depois disso, a ideia era fazermos um city tour no pouco tempo que teríamos na cidade.

Antes de sairmos, decidimos falar com o concierge do hotel pra conseguir informações sobre o circuito mais apropriado dentro da nossa disponibilidade e, se possível, comprar os passes. Quando chegamos no lobby, havia uma família filipina já conversando com o funcionário, que parecia estar no fim da explicação. No entanto, mais de 15 minutos se passaram até que ele pudesse finalmente nos atender. Não sei se por insegurança ou carência, um dos sujeitos não parava de fazer as mesmas perguntas.

Decidimos pelos percursos 4 e 5, pois só teríamos aquela tarde até as 18h e a manhã do dia seguinte pra conhecermos, ao menos, os principais monumentos.

Mesmo às 10h30 da manhã, o sol já castigava de calor, mas resolvemos ir andando assim mesmo até o museu, pra tentarmos conhecer um pouco melhor Washington.

O tom da cidade, naquela região, nos pareceu sempre muito próximo, com os prédios públicos indo de diversos tons areia até eventuais edifícios espelhados. Variava entre o bonito, imponente e kitch, com templos e colunas de inspiração claramente neoclássica. Em alguns momentos, chegamos a achar um pouco monótono. Em todo caso, a cidade possui um grande mérito arquitetônico que é a manutenção de um gabarito baixo. Em momento algum vimos qualquer espigão antipático cortando o céu e desarmonizando a vista.







Entramos na National Gallery, cuja entrada é franca e, como não tínhamos ainda tomado café, cruzamos o museu e fomos para o subsolo, onde nos indicaram haver um centro de alimentação.

No percurso, até lá, foi difícil já não parar pra apreciar as belezas do acervo, que vimos contar com uma exposição especial de um de meus pintores preferidos, Degas, e a americana Mary Cassatt, cujo encontro com esse mestre impressionista declarou ter mudado sua vida.

A lanchonete gigantesca estava quase vazia e ficava ao lado de uma lojinha de souvenires não muito menor. O Eduardo escolheu uma torta trufada de chocolate e eu um sorvete de caramelo com flor de sal. Enquanto eu decidia, reparei que a atendente preparava uma bebida linda para outro cliente, com café e um leite cremoso (ou creme leitoso) que se misturou fabulosamente na quantidade colossal de gelo que havia no copo. Fiquei hipnotizada e perguntei discretamente o que era. Ela respondeu que tinha servido um iced latte. Eu, que não sou de café, quanto mais café gelado, resolvi experimentar. Adorei! Mas a quantidade era tanta que dividi com o Eduardo, ainda tendo de me esforçar pra terminar minha metade.

Como estávamos mais próximos das obras dos pintores a partir do fim do século XIX, que sempre acabamos deixando para o fim e, por isso, terminam sempre sendo os que vemos com mais pressa, resolvemos inverter aquela ordem. Começamos por uma galeria que contava com lindos Van Gogh, Cezánne e Matisse.

Logo depois, partimos para a exposição. Fiquei ainda mais fascinada do que já era por Degas, que considero o melhor dos impressionistas. Amo o realismo elegante com que ele era capaz de retratar sutis emoções de seus (na maioria, suas) modelos. Não conhecia o trabalho de Mary Cassatt e a comparação de seus quadros com de seu grande inspirador tornava ainda mais evidentes as diferenças entre uma boa artista e um gênio da pintura.

Alguns quadros dela realmente eram espetaculares, mas como bem definiu o Eduardo, entre outros detalhes, suas figuras tinham sempre o olhar um tanto posado, artificial e, por isso, menos envolvente; como diria o poeta, não descortinavam aquela angústia de haver alma (depois do ponto e vírgula, foi uma óbvia inserção do próprio Eduardo).






Depois, corremos pra ver um dos poucos quadros de Leonardo da Vinci, em exposição numa sala mais afastada de onde estávamos. Trata-se da única do mestre em exibição nos Estados Unidos. É absolutamente sensacional e é de uma delicadeza tão extrema que fica difícil lembrar que se trata de uma pintura.


Nesse momento, já eram 12h45 e precisávamos correr para o hotel. Diante do bafo quente inacreditável quando saímos do ar condicionado do museu, decidimos pegar um táxi. Foi um pouco difícil consegui-lo, mas uma vez dentro do carro, chegamos em 5 minutos.

Quando entramos no lobby, Marat já estava na recepção, provavelmente para checar se estávamos no quarto. Quando viu o Eduardo, abraçou-o calorosamente e foi a primeira vez que testemunhei meu marido abraçar alguém sem ter de se abaixar nem um milímetro.

Marat nos levou para conhecer um pouco mais de Downtown, bem como o Banco Mundial, onde já trabalhou e Emiko atualmente trabalha. Muito gentilmente, ele já havia solicitado autorizações para a nossa visita, para a qual foi necessária inspeção de segurança.  Entrando no prédio, tomamos um susto com sua grandiosidade, que não é possível de supor, vendo-se pelo lado de fora.









No hall principal, há exposições de fotos, um jardim interno, diversos cafés e restaurantes para os funcionários. Marat nos levou pra almoçar em um Buffet com culinária contemporânea, que tinha um pouco de tudo. Aproveitei pra comer uma saladinha, pois já tinha um tempo que não dava um alô para algumas folhinhas verdes.

Eduardo contou que tínhamos nos casado há uma semana e Marat ficou claramente feliz por nós, admirando-se e repetindo o fato diversas vezes depois. Contou-nos sobre Emiko, sua mulher, com quem se casou pouco depois de conhecer o Eduardo e seus dois filhos, Maya e Max, que teríamos a oportunidade de conhecer mais tarde.

Depois do almoço, Marat fez uso de seu poderoso crachá de marido de funcionária e passeamos pelos corredores do Banco Mundial. A maior parte das divisórias era de vidro e foi muito engraçado ver aqueles cenários de filme americano, com salas em que dezenas de pessoas se reúnem em volta de uma mesa absolutamente gigantesca.

Em determinado momento, estávamos no hall do elevador de um determinado andar e uma dessas salas ficava bem a nossa frente. Como apenas duas lâminas de vidro nos separavam do grupo, era possível ver uma enorme apresentação sendo projetada, com o que parecia ser uma espécie de business plan de algum projeto. Marat fez graça lendo o texto do slide e comentando que aquilo tudo devia ser muito chato. Um dos participantes da reunião parece não ter gostado de nossa curiosidade e esticou-se na cadeira, com uma expressão não muito amigável, pra verificar quem eram aqueles bisbilhoteiros andando nos corredores do Banco Mundial. Felizmente o elevador chegou e entramos rapidinho.

Depois, fomos até o prédio do escritório de advocacia em que Marat trabalha. Um espaço muito agradável, com bastante luz do sol e salas amplas. Conhecemos um colega seu que representa empresas brasileiras em Washington e, por isso, falava Português. Trocou algumas palavras conosco, obviamente sobre a Copa do Mundo e depois seguimos com Marat para ver um espaço de convivência que havia no terraço do prédio.







Já havíamos tomado demais o tempo de Marat, por isso, resolvemos deixá-lo até mais tarde, quando jantaríamos em sua casa.

Andamos até uma das paradas do nosso ônibus, onde algumas pessoas também esperavam. Fazia um calor infernal e estava mais quente ainda quando entramos no ônibus. Tivemos de decidir entre uma insolação no andar de cima ou uma desidratação no andar de baixo e decidimos ficar na parte de baixo, junto com alguns pesos pesados tipicamente americanos, que pareciam fazer parte da ambientação do city tour.





Passamos pela Union Station e soubemos que havia uma estátua do Colombo, numa área que não havíamos visto e também pelo Capitólio, quando o guia explicou haver no seu topo a estátua da liberdade. Segundo ele, nenhum outro prédio deveria estar acima dessa estátua, uma vez que a liberdade deve sempre estar acima de tudo. Fizemos a volta e vimos o edifício por diversos ângulos diferentes.




Vimos o monumento de Washington, que pode ser conferido por diversos pontos da cidade...

... e também os mais diversos prédios administrativos e o memorial de Lincoln. Nesse ponto, acabamos saltando pra conferir de perto a gigantesca escultura do mais querido presidente americano, sentado de frente para a Reflecting Pool. 









O memorial tem a forma de um templo grego, no qual a gigantesca estátua de Lincoln sentado ocupa o lugar reservado à divindade. Uma das paredes internas é ocupada pela transcrição do Gettysburg Address, o mais célebre e comovente discurso de Lincoln (este parágrafo sério e culto é obra do Eduardo). 

Lembrei muito da cena do Forrest Gump em que a Robin Wright Penn reconhece o personagem do Tom Hanks fazendo um discurso e, no meio de uma multidão de hippies que assistia, sai correndo pelo meio das piscinas do monumento, gritando “Forrest, Forrest!". (enquanto que esse parágrafo de bobagem pop é meu)

Vimos também o monumento da guerra da Coréia, que nos pareceu de um certo mau gosto, com estátuas prateadas de soldados em campo. Pelo guia do city tour, soubemos que cada um olhava para uma direção determinada, representando todo o campo de guerra sendo coberto. O guia também informou que cada uma das esculturas tinha as feições de um soldado real, o que também achamos um pouco mórbido.




Depois de mais alguns prédios e monumentos, resolvemos saltar num ponto próximo ao hotel, ainda antes do fim do loop, pois o tempo apertava para nosso encontro com Marat, que viria nos buscar às 18:30 e, diante da sauna que fizemos nas últimas horas, ainda tínhamos de tomar um bom banho.
Passamos numa lojinha de bebidas em frente ao Willard e compramos o melhor vinho ali disponível pra presentear nossos generosos amigos e fomos correndo nos arrumar.

Às 18:30, já no saguão do hotel, percebemos uma moça com traços orientais procurando alguém e supomos que fosse Emiko. Não deu outra, pois ela logo veio perguntar se éramos Eduardo e Ana Paula.

Marat estava no carro com Maya, Max e uma amiguinha de Maya, chamada Sophia. Foi um trajeto divertido até Arlington, o lindo subúrbio em Virgínia, estado vizinho ao Distrito Federal americano, onde todos eles moravam. Era bem próximo ao centro de Washington, mas pegamos bastante trânsito e acabamos demorando um pouco.

As crianças eram fofas demais! Maya acabou dormindo durante o trajeto, mas a falante Sophia não parava de fazer perguntas e contar a seu respeito, como, por exemplo, sobre sua mãe, que é equatoriana e o fato de ela falar espanhol. Max ameaçou algumas reclamações de fome e, como eu era quem estava ao lado dele, fui incumbida da deliciosa tarefa de dar-lhe alguns biscoitinhos. A distração durou um pouco até a hora em que ele preferiu o colo de Emiko e voltou a distribuir sorrisos.

Ao chegarmos, fomos recebidos pela mãe de Marat, Vera, que estava visitando de Moscou e conversava com ele e Emiko em russo. Pra mim, foi especialmente interessante, pois nunca havia presenciado tantos diálogos no idioma.


A casa de Marat e Emiko era linda, bem ao estilo subúrbio americano, super ampla, cercada de verde e sem qualquer muro delimitador dos terrenos, característica que deixa o Eduardo especialmente fascinado. (Comentário do Eduardo: uma sociedade pautada na confiança e não na suspeita).

As crianças eram uns doces e educadíssimas! Pareciam os filhos da família Von Trapp! Enquanto Max se divertia sozinho com seus brinquedinhos, fomos conhecer melhor o lugar por dentro, sempre sendo seguidos pela sorridente Maya, que parecia adoravelmente orgulhosa da casa em que morava.



O jantar preparado por Emiko estava uma delícia! Brindamos com champanhe ao reencontro, ao casamento e trocamos muitas histórias. Vera nos deixou admirados quando nos falou sobre sua participação nas expedições num navio científico da antiga União Soviética, em 1968, que parou em Recife e no Rio. Também foi especialmente divertido contar o calvário que vivemos pra conseguir a autorização para o casamento civil, quando passamos sete horas num plantão judiciário, varando a madrugada de uma segunda-feira. Todos os relatos, nossos e os de Vera, eram simultaneamente traduzidos por Marat e acompanhado das divertidas risadas de sua mãe.



Depois do jantar, fomos nos sentar na varanda interna da casa, onde era possível ver mais um espetáculo de vaga-lumes e sentir o clima de um pacato e tranquilo bairro residencial americano.

Uma chuva começou a ameaçar e vimos raios espetaculares no céu aberto, sem qualquer prédio alto atrapalhando a vista. Como a hora já avançava, achamos que já devíamos ir embora, pois nossos amigos não estavam de férias como nós e trabalhavam no dia seguinte. Queríamos chamar um táxi, mas Marat, na gentileza com que nos cercou durante todo o tempo, fez questão de nos levar ao hotel.

Despedimo-nos de Vera e de Emiko, que já estava colocando as crianças pra dormir, agradecendo muito e desejando que pudessem nos visitar no Brasil assim que possível.

Seguimos de volta a Washington com Marat, que aproveitou pra passar por Georgetown durante o trajeto, pra que já sentíssemos o clima do lugar que desejávamos conhecer no próximo tour.

Chegamos em menos de 15 minutos e nos despedimos já combinando de nos encontrar no lobby do hotel, às 10h30 do dia seguinte.


Mais agradável ainda do que conhecer as histórias e monumentos de uma cidade é manter os laços de amizade com as pessoas queridas que estão nelas, superando tempo e distâncias. Esse, certamente, foi o ponto alto de Washington!

Um comentário:

  1. Curtindo muito e já marcando na agenda uma visita breve a Washington! Adorei as dicas!

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